Visibilidade Trans: Confira entrevista exclusiva com Giovanna Heliodoro
Historiadora, comunicadora e mulher trans, Giovanna Heliodoro ou @transpreta é um fenômeno nas redes e une humor, ironia e muito conhecimento a causa da diversidade no Brasil
“Lembre-se de que para além do mês da visibilidade trans, queremos mais oportunidades”, afirma @transpreta - mulher trans, historiadora e comunicadora na sua entrevista exclusiva para L'Officiel Hommes Brasil.
Giovanna Heliodoro - ou @transpreta - é um fenômeno nas redes e une humor, ironia e muito conhecimento a causa da diversidade no Brasil, apresentando com maestria a história do nosso país e suas inúmeras curiosidades. Além, é claro, de defender e buscar por respeito, inclusão e cada vez mais direitos para os LGBTQIAP+.
Giovanna questionou pontos importantes e necessários no video feito para a L’Officiel Hommes, onde as perguntas merecem reflexões profundas e muita atenção. Vale a pena conferir e também ler toda a entrevista da diva aqui.
Qual a importância do dia da visibilidade trans para a comunidade?
Essa data é um verdadeiro Marco histórico da comunidade Trans e Travesti do Brasil, o Dia Nacional da Visibilidade Trans foi instituído na intenção de garantir direitos básicos para nossa comunidade. Essa data demonstra, para além da importância da visibilidade, a necessidade de gerar oportunidades para que pessoas trans possam acessar espaços, serem vistas e reconhecidas.
Infelizmente, a rotina das pessoas transgêneros e travestis no Brasil é marcada pelo medo, violência, discriminação e falta de oportunidade. Para você, quais são as maiores e principais dificuldades que uma pessoa trans enfrenta no seu cotidiano?
Pessoas travestis e transexuais lutam por direitos básicos e entender isso é compreender que ainda estamos debatendo sobre pautas fisiológicas, como exemplo: nós ainda lutamos para usar um banheiro, lutamos para que nossos nomes sejam respeitados, lutamos para que possamos trabalhar no mercado formal. O nosso cotidiano é marcado por ausências e vírgulas e faltas de oportunidades de subsistência, mas enfrentar isso se faz necessário. Por isso, neste mês reforçamos mais uma vez que sejamos lembradas não apenas em janeiro, mas durante todo o ano.
Muito se fala sobre diversidade e inclusão, mas efetivamente você se sente incluída na sociedade?
Eu me sinto incluída na sociedade em partes, pois ainda bem sei que consigo acessar determinados espaços por ser uma pessoa influente na internet, ou formadora de opinião. Porém, mesmo assim não posso me esquecer que não sou vista enquanto uma pessoa Cis e branca nos espaços. Então, por mais que seja incluída, me sinto de alguma forma excluída.
O Brasil vem reconhecendo cada vez mais importantes leis para os transexuais, mas a ainda falta muito! Na sua opinião, como está esse processo no nosso país e como funciona na prática a garantia legal dos direitos?
Nós temos leis que garantem os direitos de pessoas trans no Brasil, porém, na prática, isso não é uma realidade. Como exemplo, em 2021 o Congresso Nacional tinha aproximadamente 40 projetos que citavam diretamente a população trans, mas a aprovação por meio da Câmara de Deputados em Brasília negou a necessidade da existência dessas políticas públicas. De toda forma, precisamos reconhecer que vivemos um momento único, historicamente dizendo. Em 2022 temos pela primeira vez duas deputadas federais que são travestis, minha amiga Erika Hilton e Duda Salabert. Juntas elas assumem o papel de transformar este cenário dentro da Câmara dos Deputados, garantindo que os crimes de lgbtfobia no Brasil sejam devidamente penalizados, bem como que os direitos que já garantimos há anos atrás não sejam retrocedidos. É importante lembrar também de Symmy Larrat a primeira travesti secretária nacional do governo brasileiro.
O que você tem para dizer para aqueles que se sentem discriminados e com dificuldades de se inserirem no mercado de trabalho? A quem recorrer? O que fazer?
Décadas atrás muitas travestis e transexuais nem sequer tinham uma oportunidade de estar dando uma entrevista como eu neste momento. Muita coisa mudou de lá para cá, hoje podemos não ser aceitas em algum espaço, mas mesmo assim subvertemos muitas realidades que nem antes eram possíveis. Por isso nunca se esqueça que sua existência é possível, graças às muitas que nos antecederam na luta. Seja você e busque por redes de acolhimento trans, pois juntas somos mais
Ainda existe segregação e preconceito nos relacionamentos amorosos e amizades?
Bom, é importante ressaltar antes de mais nada que sou uma travesti noiva, e a minha realidade é extremamente distante da maioria das minhas irmãs. O afeto não é uma realidade para nossa comunidade, sempre somos colocadas no lugar do fetiche e da hipersexualização dos nossos corpos. Você que está lendo essa entrevista já se questionou sobre quantas pessoas trans fazem parte da sua vida? Essa pergunta é fundamental para compreender que pessoas trans não fazem parte do convívio social da maioria das pessoas e mudar essa realidade é necessário.
Você acredita que existe uma contribuição efetiva da moda com a causa trans? O que poderia ser feito?
Eu sou completamente fanática pelo universo da moda, acompanho muitas marcas e designers brasileiros que vem revolucionando a indústria. Em 2020 eu tive a oportunidade de desfilar pela primeira vez no São Paulo Fashion Week e essa experiência foi fundamental para reconhecer outras pessoas trans que já estavam acessando este espaço. No Brasil temos inúmeras stylists trans, travestis nas passarelas, equipe técnicas transmasculinas e ou não binarie, porém as oportunidades são poucas. Todos deveriam conhecer Isaac Silva, Lea T, Sam Porto, Giulia Dias, Aretha Sadick, Dandara
Queiroz, Valentina Sampaio, Jari Jones.
O que você gostaria que o mundo soubesse sobre as pessoas trans?
Lembre-se de que para além do mês da visibilidade trans, queremos mais oportunidades.
O ano ainda está começando, mas com certeza promete muitos sucessos! Nos conte um
pouco sobre seus planos, projetos e sonhos para 2023?
Sonho com o dia que eu irei ser convidada para falar de minhas realizações e não simplesmente sobre ser uma pessoa trans. Por isso essa pergunta me humaniza, e antes de mais nada gostaria de agradecer.
Afinal este ano é um momento único na minha carreira, junto com Bielo Pereira, irei apresentar no Brasil o primeiro prêmio voltado e pensado para comunidade Trans e Travesti. Juntas iremos criar muito mais do que um evento, mas sim uma plataforma de conexão e acolhimento para nossa comunidade e pessoa cis aliadas.
Quantos artistas trans que você conhece foram premiados em grandes eventos da indústria? Não consegue lembrar? Será que não existem? Ou só não recebem o protagonismo que merecem? Se existimos desde que o mundo é mundo e se desempenhamos papéis nas mais variadas camadas da sociedade, como na música, no cinema, no teatro, porque não somos premiadas? Esse ano iremos mudar essa realidade.