Moda

NFTs: entenda como os artigos exclusivos podem mudar a moda

Experiência híbrida, itens exclusivos e liberdade criativa: criptomoedas prometem revolucionar universo da moda com NFTs

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O mundo da moda, apesar de ser um reflexo importante da sociedade da época, nem sempre está aberto para assumir riscos e experimentar as inovações do momento. A moda de luxo, em especial, costuma tomar uma posição majoritariamente tradicional e conservadora, com exceção de alguns nomes que já têm se arriscado em outras frentes do mercado.

A pandemia causada pelo novo coronavírus chegou criando um cenário em que a mudança e adaptação se tornaram essenciais para garantir a continuidade das marcas, obrigando-as a assumir uma postura que antes era mais difundida entre coletivos e artistas com viés experimental. Se antes alguns nomes grandes, como Louis Vuitton, apareciam com algumas poucas ações que conversavam com um público mais jovem e moderno, tudo mudou com a quarentena, momento em que marcas consolidadas levaram seus processos para o ambiente digital e virtual.

Especialmente nos primeiros meses de pandemia, a digitalização das empresas do ramo da moda foi visível. A Balenciaga, por exemplo, lançou o seu próprio jogo, chamado Afterworld: The Age of Tomorrow, como forma de apresentar a sua coleção de inverno 2021. Já outros nomes, como a Dior, optaram por deixar de lado os desfiles presenciais e escolheram os fashion films como ferramenta para mostrar as peças.

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Afterworld: The Age of Tomorrow (Foto: Divulgação)

Ascensão do NFT 

E foi nesse meio que os NFTs se popularizaram. Primeiramente, entre artistas do cenário alternativo, passando por celebridades e pautando o caminho para ganhar seu espaço no mercado da moda. Por meio dele, é possível criar um senso de exclusividade e transformar itens e experiências em coisas desejáveis – estratégia que permeia o universo da moda de luxo.

Celebridades como Paris Hilton, Kate Moss e Emily Ratajkowski já fizeram suas estreias no meio dos NFTs, usando o espaço como ferramenta para a discussão de temas relacionados ao empoderamento feminino e às críticas à indústria. Fotografias, vídeos e textos foram alguns dos itens vendidos e leiloados nas diferentes plataformas voltadas para esse negócio. 

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NFT de Paris Hilton (Foto: Instagram @parishilton)
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NFT de Emily Ratajkowski (Foto: Instagram @aec.awards)

O que é NFT?

Antes de entender como os NFTs podem afetar o mundo da moda, é importante saber o que esse conceito representa. Os NFTs, ou tokens não-fungíveis, são ativos virtuais registrados na blockchain, com a mesma tecnologia descentralizada e imutável desse sistema. Ele funciona como uma espécie de selo de autenticidade digital, que transforma a obra em questão em um único item, que pode ser leiloado ou colocado à venda. A imagem, foto ou música em questão pode até ser replicada, mas o dono será o único em posse da versão original. Sua venda é feita, majoritariamente, por meio de criptomoedas.

Essa assinatura transforma o item em sua versão “fonte”, e investir em NFTs é quase como apostar em uma obra que pode se tornar a próxima Mona Lisa, sendo que nem mesmo a réplica mais exata pode carregar o valor igual ao da obra original. No mundo da moda, isso dá ao item em questão o valor de objeto único, irreplicável e exclusivo, além de permeado por uma experiência inovadora e interessante. Não é novidade ver NFTs sendo comercializados como uma peça única ou em quantidade limitada, e praticamente qualquer coisa pode se tornar um token não-fungível – desde fotografias, músicas e fotos até memes e tweets.

 

Um dos primeiros casos em que a moda e os NFTs colidiram aconteceu em 2019, por meio da venda de um vestido digital de alta-costura. O leilão da peça foi organizado pelo DapperLabs, criador do Top Shot e dos CryptoKitties, em parceria com a marca digital The Fabricant, e arrecadou US$ 9.500 pela venda da roupa, existente somente dentro do ambiente virtual. A The Fabricant é, inclusive, uma grife digital com grande presença na produção de peças virtuais, e não somente NFTs.

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Peça NFT da grife The Fabricant que foi leiloada em 2019 (Foto: Instagram @the_fab_ric_ant)

A moda em conjunto com o NFT cria a possibilidade de adquirir peças exclusivas que podem ser “vestidas” dentro de aplicativos e redes sociais. Marketplaces, como o The Dematerialised, têm surgido com esse objetivo, e as peças compradas na plataforma podem ser usadas em metaversos – um tipo de mundo virtual que tenta replicar a realidade, através de dispositivos digitais –, como o Sansar, evolução do jogo Second Life, e o VR Chat, plataforma social de realidade virtual.

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Peça NFT vendida no The Dematerialised (Foto: Instagram @thedematerialised)

NFT e a experiência híbrida

Apesar de todas as possibilidades que os NFTs podem trazer dentro do universo digital, com produções psicodélicas e efeitos que jamais poderiam ser reproduzidos na vida real, é possível criar uma experiência híbrida, agregando um item físico exclusivo à experiência virtual e elevando o sentimento de desejo em relação ao que está sendo vendido.

Nesse caso, itens simples, como uma calça jeans ou jaqueta de moletom, ganham o status de peças únicas e passam a valer milhões. O valor não é unicamente pela peça em si, mas pelo que ela representa em termos de evolução de mercado e exclusividade, por se tratar de um item limitadíssimo. A marca de tênis digitais RTFKT Studios, em parceria com o crypto artista Fewocious, leiloou uma série de NFTs. Os tênis virtuais se esgotaram em apenas sete minutos, rendendo US$ 3,1 milhões à marca. 

O diferencial, nesse caso, é a conversa com o mundo real, já que os donos dos modelos virtuais vão receber uma versão física do sneaker, possibilitando seu uso tanto dentro de jogos e redes sociais, quanto em eventos físicos, provando a versatilidade híbrida dos NFTs. A versão virtual do tênis também serve como um selo de autenticidade para o calçado – outra usabilidade interessante das peças virtuais para o mercado de luxo, que pode, no futuro, criar uma versão digital de suas peças para comprovar a exclusividade da roupa.

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(Foto: Instagram @aec.awards)

Outra peça foi vendida de maneira similar, desta vez, pela marca de streetwear Overpriced. O produto foi adquirido por um comprador anônimo por 19 mil libras no marketplace de arte digital blockparty.co. Ao comprar o NFT, o dono receberia em casa uma versão física do moletom da marca, criado na cor preta, com um código QR estampado e com o grafite “foda-se o seu dinheiro” em verde neon. 

O código digitalizável permite ao usuário usar, autenticação e mostrar seu NFT exclusivo por meio de uma imagem pop-up no smartphone. Se o moletom for perdido, roubado, danificado ou vendido, o código será invalidado e uma nova peça será enviada para o endereço de escolha do novo proprietário, tornando a nova peça autêntica. A empresa por trás de toda essa ideia usa os NFTs e o ambiente das criptomoedas para discutir a precificação da arte e o mercado de luxo.

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(Foto: Instagram @aec.awards)
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(Foto: Twitter @Overpriced_NFT)

As marcas, entretanto, não devem se prender ao híbrido, já que os NFTs e o ambiente digital abrem portas para uma moda que não se prende às leis da realidade. A entrada das grandes grifes nesse universo ainda acontece de forma tímida, mas as marcas que se arriscam podem encontrar um novo mercado – mais jovem, moderno e ousado – para explorar.

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(Foto: Instagram @the_fab_ric_ant)

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