Por trás da cena: Simone Nunes fala sobre moda personalista
“Ela não foi feita para vender.” É assim que Simone Nunes resume o começo da história da sandália Pillow, que se tornou item de desejo em todas as classes de fashionistas, das influencers modernas do Instagram às mulheres de gosto mais clássico. Criado em 2016 para sua marca Room, o modelo realmente não é dos mais fáceis, com duas tiras maximalistas que abraçam o pé – mas, por um desses inesperados da moda, deu certo. Tanto que a brasileira licenciou a Pillow para a marca de Los Angeles, Cult Gaia, que passa a produzir e vender versões exclusivas no próximo verão do Hemisfério Norte. “Às vezes, nem eu acredito. Ela nasceu de uma vontade de fazer algo que não vai para a coleção comercial”, explica a criadora. “Foi tudo uma questão de timing. O mundo se mostrou em um momento diferente, as pessoas estavam cansadas de produtos presentes em todos os lugares.”
Timing é uma palavra muito importante para entender a trajetória de Simone nos últimos 20 anos de carreira. A estilista, que começou na Casa de Criadores, logo migrou para o HotSpot e foi parar na SPFW. Era uma época em que a moda brasileira tentava fomentar uma nova geração de estilistas, com o holofote dos desfiles, mas sem dar o peso necessário à parte comercial que equilibrasse a efervescência criativa. O resultado: muita gente talentosa ficou pelo caminho.
Ela, por outro lado, teve o feeling de parar na hora certa. “Tomei a decisão de fechar a marca em 2010, depois de um desfile que foi até que bem-sucedido. Percebi que estava no ponto de crescer e eu precisaria trocar a criação pelo business. Achava que não era para mim, ainda tinha muito o que explorar.” Desde então, Simone saiu pela boca de cena e foi para o “mundo real”. Discreta por natureza, embrenhou-se em cargos de consultoria e criação de todos os tipos – do desenvolvimento de coleções para marcas conhecidas, como a Iódice, a trabalhos no Brás e Bom Retiro –, antes de entrar em uma rotina global desbravadora, que envolveu ficar na ponte aérea entre São Paulo, México, Londres, Paris, Nova York, Espanha e China. “Foi nesse momento que entendi que criação e administração podem ser pensadas em uníssono – e que eu era boa nisso. Não adianta apenas ter uma boa ideia. Para ela dar certo, é preciso muito trabalho para que aconteça no momento ideal. Uma boa ideia sozinha é um TCC de faculdade”, define. “Quando desfilava, por exemplo, eu apresentava propostas que só seriam aceitas pelo mercado dois anos depois. Isso ajudou que entendesse o que vende e quando.”
Dessa rotina de viagens nasceu a Serpentina, projeto sustentável de biquínis, global mas com foco em produção local; e a Room, pensada para ser uma marca com peças que traduzem o conforto de casa, mesmo a distância – lógica que explica a singularidade da Pillow e sua volumetria... curiosa. “O começo foi uma batalha. O fornecedor não queria fazer aquela ‘coisa horrorosa’, as lojas pediam para diminuir o tamanho. O lançamento dela também é um exemplo desse novo tipo de business criativo que percebi fazer sentido hoje. A sandália só saiu pois sou a dona da marca e liberei o lançamento de um produto, a princípio, não vendável. Se estivesse trabalhando para outra empresa, isso nunca teria acontecido.”
Sua discrição também ajudou a alimentar o buzz da marca quase anônima. Pouca gente atinava que a Room fosse brasileira, muito menos daquela estilista que largou as passarelas e sumiu há mais de dez anos. Simone se diverte: “Eu levo bronca, de que devo começar a assumir meu trabalho”, mas também entende os riscos de ser uma etiqueta pequena e sem um rosto: “Nomes grandes começaram a copiar o design da Pillow e isso poderia ter nos engolido facilmente”.
A collab com a Cult Gaia tem ressonância com essa linha de pensamento. A marca de Jasmin Larian começou a ganhar projeção em 2016 quando a Ark, modelo de bolsa feita de bambu, tornou-se it bag pelas mãos de Jessica Alba, Michelle Williams e Beyoncé e passou a ser reproduzida pela Zara e outras gigantes do ramo. “A Jasmin comprou uma e me ligou. O que é muito digno, pois ela se recusou a repetir o que fizeram com ela.” A ligação se tornou um licenciamento, que começa com três modelos da sandália exclusivos para a Cult Gaia – e já com planos de novos modelos feitos a quatro mãos. “É o ápice do primeiro ciclo de vida da Pillow”, conta, enquanto prepara o terreno de sua mudança para Milão, assim que a pandemia deixar. Desde o ano passado, Simone vem organizando para que a Room seja uma etiqueta made in Italy, além da produção brasileira. O futuro inclui parceria com Adriana Fortunato, brasileira que desenvolve trabalho com refugos da indústria têxtil italiana, de uma linha de bolsas e sapatos envolvendo trabalho manual de uma comunidade do Sul do Brasil.
A cabeça de Simone borbulha em projetos, de curadoria e publicação de artistas à vontade de valorização da mão de obra brasileira, que é tão desperdiçada no mercado global, sempre envolvendo esse pensamento de business criativo que desenvolveu ao largar mão das passarelas. “Minha filha tem dado Google no meu nome e descoberto entrevistas daquela época que eu nem lembrava. Lendo, fiquei impressionada: os temas, os assuntos, já estava tudo ali. Só faltava desenvolver.”
Empreendedora de Los Angeles, Jasmin Larian tem faro bom para negócios. Teve o primeiro case de sucesso fazendo headbands e coroas de flores enquanto se formava na FIT, em Nova York. Sua marca começou produzindo a bolsa de bambu – que viralizou pelas redes sociais e transformou a Cult Gaia em nome forte no mundo da moda de pegada lifestyle, cheia de fãs-celebridades. O licenciamento com a Room vai espalhar três modelos exclusivos da Pillow: dourada, o white com textura de cobra e outra inteira em terracota.
L’OFFICIEL Primeiramente, estou morrendo de curiosidade de saber como você tomou contato com a Pillow.
JASMIN LARIAN Estava fazendo compras, como uma consumidora normal. Quando vi a Pillow, eu me apaixonei e calcei imediatamente! Raramente encontro peças que amo de verdade, o grande motivo que me fez começar minha marca. Então, contactei Simone pelo Instagram, gostei da sua vibe e pensei que poderíamos fazer algo juntas.
L’O O que levou você a pensar que ela é uma boa ideia para a coleção da Cult Gaia?
JL Essa pegada puffy vem sendo assunto recentemente. Meu time da marca estava trabalhando em algo nessa linha acolchoada. Quando vi a Pillow, eu disse: “Esqueçam, quero fazer isso com a Simone”. Amo poder colaborar com outras mentes criativas, é o que me anima!
L’O Você sente algum tipo de eco brasileiro no design da Pillow? Quanto isso foi importante em sua decisão de licenciá-la?
JL A qualidade da manufatura tem uma pegada brasileira. Talvez até tenha sido isso que me chamou atenção, em primeiro lugar. Nós também fazemos nossos calçados no Brasil. Sou fascinada pela arte e pela atenção aos detalhes que os artesãos com quem trabalhamos conseguem atingir – é diferente de qualquer lugar no mundo.
L’O A Cult Gaia fala muito em seu manifesto sobre peças que são objet d’art. Imagino que você enxergue isso na Pillow também. Qual é sua definição de objet d’art no guarda-roupa e o que faz da Pillow um deles?
JL Penso que você pode calçar a Pillow com qualquer coisa e as pessoas vão se impressionar e dizer: “Uau, o que é isso?”. É esse também o DNA da Cult Gaia: peças que são para vestir mas que você valoriza como se fossem arte. Elas podem estar apenas dispostas na mesa de centro ou no chão, e essa é nossa arte. Somos também superinspiradas por mobiliário e arquitetura – assim como Simone, acredito. As sandálias carregam essas características. Nossa colaboração é muito fortuita e acho que nós duas pensamos de forma muito parecida.
L’O A Pillow tem uma série de fãs e colecionadoras no Brasil. Algum plano de chegar até elas com a parceria Room/Cult Gaia?
JL Adoraríamos ter uma pop-up ou um ponto de venda para atender todas! Vamos explorar possibilidades assim que o mundo se abrir.