Arte

Isabella Prata vive cercada de arte, cultura e um jardim em sua sala

De empresária visionária e bem-sucedida a ativista socioambiental, Isabella Prata vive cercada de arte, cultura e um jardim que brotou no meio de sua sala

Isabella Prata
Isabella Prata

De empresária visionária e bem-sucedida a ativista socioambiental, Isabella Prata vive cercada de arte, cultura e um jardim que brotou no meio de sua sala. Confira!

O interesse pela cultura vem de berço. Não por acaso, o nome de Isabella Prata está ligado a esse universo desde sempre. Mineira criada em São Paulo, vem de uma família de pecuaristas, mas seu avô sempre reservou um interesse especial para as artes, e isso impactou diretamente as gerações que seguiram. “Meu avô escrevia poemas, e os filhos seguiram esse rumo. Tem arquiteto, alguns escritores e um grande envolvimento com a política nos anos 1960. Tive primos e tios ligados a movimentos pró-democracia. Durante a ditadura, alguns foram torturados, outros exilados… E foi nesse meio que fui criada”, conta a ex-empresária, atualmente ativista, com um perfil contestador que corre nas veias. 

Área da biblioteca
Área da biblioteca, com poltronas John Graz, Joaquim Tenreiro e Mies van der Rohe, e obras de Picasso, Felix Gonzales-Torres, Alexandre da Cunha, Marepe e Sandra Cinto - Foto: Romulo Fialdini.

Consultora, produtora e advisor nas áreas de inovação, sustentabilidade, cultura, bem-estar, novas economias e direitos humanos, Isabella foi a cabeça e a alma por trás da badalada Escola São Paulo, inaugurada nos idos de 2006, em plena Rua Augusta: “Colocamos a economia criativa no mapa do Brasil. Crescemos muito, e percebi que fui me distanciando do meu propósito”, lembra ela, que, em 2016, decidiu vender a escola. Hoje, nas palestras e nos talks que apresenta mundo afora, revela que não sabia qual era o tamanho da vida que queria ter e traz ao centro do debate os impactos negativos causados por uma empresa que cresce muito. Logo depois de se desfazer do empreendimento, Isabella mudou-se para Paris, onde entrou em contato com a questão dos refugiados e iniciou seu envolvimento nos problemas de emergência climática.

“A GENTE TINHA UMA LISTA DO QUE ESTÁVAMOS buscando. TANTO EU COMO MEU MARIDO TRABALHAMOS COM meio ambiente E QUERÍAMOS UM LUGAR ONDE PUDÉSSEMOS EM MOMENTOS COMO O QUE ficar bem TIVEMOS durante a pandemia.”

ISABELLA PRATA

Mãe de um casal já na faixa dos 30 e avó de primeira viagem da pequena Aya, que mora com os pais na Alemanha, Isabella divide seu tempo entre estar com a família, viagens pelos quatro cantos participando de palestras, congressos e atividades ligadas às suas áreas de interesse, e seu apartamento nos Jardins, onde vive com o segundo marido, o ativista expert em Amazônia Luiz Villares. “Encontramos um apartamento com um tamanho onde os espaços que desejávamos foram possíveis de serem desenvolvidos, sem grande impacto: abrimos paredes, restauramos o piso, escolhemos poucos elementos que foram se repetindo em cada cômodo, compondo uma harmonia visual”, explica ela sobre o atual lar, que, assim como a proprietária, transborda arte e cultura. “Arte aqui em casa tem muito valor, mas não só artes plásticas; também convivemos com literatura, filmes (principalmente documentários) e design de mobiliário. E o que mais habita aqui é a música. Uma presença diária. Não vivemos sem, e vai da admiração pela profundidade de Mahler à inteligência de Chet Baker e ao samba de Cartola”, ressalta Isabella, que curte momentos de puro deleite no pequeno estúdio montado em um corner da sala principal, onde ela e o marido botam em prática seus dotes musicais.

Parte da sala dedicada à música
Parte da sala dedicada à música, uma das grandes paixões de Isabella e Luiz, com vários instrumentos e proteção acústica - Foto: Romulo Fialdini.

Pinturas, fotos, desenhos e objetos tridimensionais estão em todos os cômodos: “Temos algumas obras que fomos acumulando no decorrer dos anos e dispomos pelo apartamento organizadas mais ou menos por temas, sem rigidez, como um espaço que reservei para uma coleção de máscaras feitas por artistas contemporâneos na época em que fui da diretoria do MAM-SP. Em outra parede, reuni trabalhos que retratam paisagens, urbanas ou "landscapes”.

Parte da sala dedicada à música
Parte da sala dedicada à música, uma das grandes paixões de Isabella e Luiz, com vários instrumentos e proteção acústica - Foto: Romulo Fialdini.

O imóvel de 400 metros quadrados levou um tempo até ser descoberto. “A gente tinha uma lista do que estávamos buscando. Tanto eu como meu marido trabalhamos com meio ambiente e queríamos um lugar onde pudéssemos ficar bem em momentos como o que tivemos durante a pandemia e que acredito que possam se repetir nos próximos anos. Na nossa lista tinha varanda, mas acabamos nos apaixonando por um apartamento que não tinha, então tratei de fazer uma varanda dentro da sala”, explica Isabella, que convocou o Estúdio Palma, dos arquitetos Lorenzo Lo Schiavo e Cléo Döbberthin, para costurar as ideias que fervilhavam em sua cabeça. Para começar, trouxeram o quintal para dentro da casa, rasgando o chão para instalar um jardim, com terra e tudo, no meio da sala. O ambiente é complementado com grandes vasos de cerâmica rústica, desses usados em áreas externas, um balanço de madeira pendurado no teto e até produção de mel de abelhas jataí. “Buscamos trazer o máximo possível da natureza e que pudesse nos abastecer. Plantamos jabuticabeira, pitangueira, mexerica-limão, fomos descobrindo as PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais).” Um vão arredondado no teto, com iluminação indireta, faz as vezes da luz do sol.

Isabella no jardim que construiu dentro da sala
Isabella no jardim que construiu dentro da sala - Foto: Romulo Fialdini.

Em um espaço totalmente integrado – sala, jardim, cozinha, estúdio de música –, Isabella queria algo que permeasse todos os ambientes e funcionasse como fio condutor. “Precisava de um elemento único, que abraçasse a biblioteca, o hall dos quartos, a sala de música, o hall de entrada, como se fosse uma grande serpente, para justificar essa miscelânea de espaços, materiais…” E assim foi feito. A “grande serpente” é uma sinuosa estrutura de madeira maciça que traz ainda mais personalidade ao lar de Isabella.

Sala de jantar com mesa dos irmãos Campana
Sala de jantar com mesa dos irmãos Campana - Foto: Romulo Fialdini.

Aliás, ela gosta de afirmar que são três apartamentos em um, com cômodos independentes, que servem para receber visitas e familiares. Essa configuração talvez seja reflexo da casa onde viveu na infância e adolescência. “Na década de 1960, em plena ditadura, minha casa funcionava como um aparelho que dava apoio e suporte para quem defendia a democracia. Eu era pequena e lembro que, de repente, tocava a campainha e chegava uma pessoa estranha. Ficávamos em total silêncio. Muito discretamente, minha mãe disponibiliza banho, roupas e comida, e logo esses visitantes iam embora.”

Seleção de paisagens urbanas e florestas de artistas
Seleção de paisagens urbanas e florestas de artistas, como Andres Serrano, Leda Catunda, Rochele Costi, entre outros; poltronas Corbusier; banco de Sergio Rodrigues; mesas de Joaquim Tenreiro. - Foto: Romulo Fialdini.

Apesar de a arte ocupar muitos espaços em seu lar e na sua vida, Isabella prefere não ser chamada de colecionadora, já que tudo ali tem sua história e seu valor sentimental. “Teve uma época em que havia mais obras, e eu chegava a guardar em storages. Agora tudo o que tenho está aqui. Até porque o artista só existe se ele for visto, não é?”, questiona ela, que tem um acervo poderoso, com nomes que vão desde Picasso até Matthew Barney, passando por Vik Muniz, Iran do Espirito Santo, Antonio Dias, Lenora de Barros, Renata Lucas, Rauschenberg e mobiliários assinados por Sergio Rodrigues, Zanine, Tenreiro, Corbusier, Campana, Mies van der Rohe, tudo convivendo em harmonia com peças trazidas de viagens pelo mundo afora. “Hoje em dia não compro mais nada.”

Parede onde estão dispostas obras que retratam pessoas
Parede onde estão dispostas obras que retratam pessoas, assinadas por Araki Nobuyoshi, Terry Richardson, Mathew Barney, Andre Komatsu, Gustavo Von Há, Eli Sudbrack, Vava Ribeiro, Fyodor Pavlov. Em destaque, tela de Vik Muniz - Foto: Romulo Fialdini.

E qual é o lugar favorito de Isabella em um ambiente tão rico de história e cultura? “São vários! Tem o lugar do cinema, o lugar do trabalho, o lugar de fumar um cigarro, o lugar de cozinhar…” Receber amigos também está entre as atividades que dão prazer ao casal. “Sempre gostei de estar com as pessoas. Adoro receber de um jeito informal. A gente cozinha, tem o bar, e a música que está sempre presente. O Luiz toca com amigos, é muito gostoso.” 

Adepta de uma vida com mais propósito, ela fez do ativismo sua profissão. “Meu marido me chama de ‘justiceira’. Hoje, sou advisor para projetos e empresas. Tenho bagagem de cultura, produção, educação, meio ambiente e direitos humanos… Sou membro do conselho da ONU para refugiados. Tenho o privilégio de viver plantando o que aprendi, em busca de um mundo melhor.”

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