Nádia Taquary funde ancestralidade e futurismo em sua obra
Nádia Taquary funde ancestralidade e futurismo em sua obra, reconectando o passado afro-brasileiro com um futuro de protagonismo negro
Nádia Taquary funde ancestralidade e futurismo em sua obra, criando uma narrativa visual que reconecta o passado afro-brasileiro com um futuro de protagonismo negro. Confira!
O trabalho da artista plástica baiana Nádia Taquary reflete uma profunda imersão em questões identitárias e culturais afro-brasileiras. Com uma abordagem que dialoga com passado, presente e futuro, suas produções incorporam um forte elo com a ancestralidade, ao mesmo tempo que exploram as possibilidades do afrofuturismo.
Esse movimento, que incorpora cultura africana e elementos futuristas, tecnológicos e de ficção científica, encontra eco em sua arte, oferecendo novas perspectivas sobre o papel do negro na sociedade contemporânea. Nádia, ao adotar esse ideal como uma das bases de sua produção artística, traz para o contexto brasileiro essa visão futurista que honra e celebra a ancestralidade afrodescendente.
“Minha obra não tem compromisso com princípios da arte ocidental. Eu busco a novidade naquilo que existe enquanto memória ancestral afro-brasileira. A história foi violentada na tentativa de ser silenciada pelas práticas colonialistas. Para mim, o afrofuturismo se ancora na ancestralidade e não na história linear, em que o passado precede o presente. Da forma como penso – pela perspectiva da memória ancestral afrocentrada –, o passado e o futuro estão contidos no agora. Dessa forma, compreendo o afrofuturismo como a novidade que está no passado”, explica a artista. Essa estética, apesar de estar fortemente conectada ao futurismo, tem raízes profundas no passado, ressaltando que o caminho para o futuro frequentemente passa pelo conhecimento e pela força das tradições ancestrais. Ao combinar o antigo com o novo, o real com o lúdico, o afrofuturismo cria um espaço único para novas narrativas que elevam a experiência negra e a colocam em um papel de destaque para a humanidade.
Viagem no tempo
Nas obras de Nádia, esse diálogo entre o passado e o futuro é visível tanto na escolha dos materiais quanto nas narrativas visuais que ela constrói. Um exemplo disso é o uso de peças como os balangandãs – joias de origem africana que carregam significados espirituais e de proteção – em esculturas que dão nova voz a esses objetos tradicionais dentro de uma estética contemporânea e futurista.
“Sou uma feminista negra. Todo o meu esforço, enquanto artista, é destacar o protagonismo de mulheres pretas. Eu crio imagens que fixam a importante presença delas na construção histórica do Brasil. Desde a pesquisa inicial com a joalheria afro-brasileira que narro histórias de luta e resistência dessas mulheres. Venho encontrando inspiração também em irmandades e sociedades religiosas femininas, como a Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte e as sociedades iorubás das Galedés, formas peculiares de empoderamento feminino. Nas minhas exposições individuais como Balangandã: uma Poética da Esperança e Íyamì Aje, trato desse universo político feminino”, comenta Taquary.
O afrofuturismo, em sua essência, é uma forma de dar voz às histórias que muitas vezes são ignoradas ou esquecidas. Nádia, ao trazer também esses aspectos em suas produções artísticas, cria narrativas visuais que desafiam as representações tradicionais da negritude. Suas esculturas e instalações são repletas de referências ao candomblé, às tradições afro-brasileiras e à diáspora africana. Com a fusão do ancestral e do futurista, ela está pavimentando novos caminhos para a arte contemporânea brasileira, por afirmar a importância da cultura afro-brasileira no cenário global e projetar um caminho em que a herança negra não apenas sobrevive, mas floresce e lidera. Em tempos de debates profundos sobre identidade e representatividade, sua arte surge como uma referência de inovação, resistência e inspiração.
Entre esculturas, objetos-esculturas, instalações e videoinstalações, suas obras já estiveram presentes em mostras individuais e coletivas no Brasil e outros países, entre elas a antológica exposição Histórias Afro-Atlânticas no Masp; Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis no Foweler Museum, em Los Angeles; Um Defeito de Cor, no Museu de Arte do Rio-MAR; e The Precious Life of a Liquid Heart, no Institute for Studies on Latin American Art, em Nova York. “Atualmente, tenho trabalhado no projeto da minha próxima exposição e preparado obras para as feiras 1-54 em Londres e Art Basel em Miami”, finaliza.