John Galliano deixa claro o “efeito Galliano” na Maison Margiela
Em um desfile performático do sempre arauto John Galliano, para a Maison Margiela, ele deixa claro o seu “efeito Galliano”
Em um desfile performático do sempre arauto John Galliano, para a Maison Margiela, o pauperismo somado ao desconstrutivismo com intensas doses de decadentismo deixa claro o “efeito Galliano”. Confira!
Gibraltino de nascimento em 28 de novembro de 1960 e vivendo em Londres desde 1966, John Galliano formou-se em moda na capital inglesa pela Saint Martins College of Art & Design em 1984, inclusive, sendo considerado o melhor aluno daquele ano.
No seu trabalho de conclusão de curso, inspirou-se nos “Incroyables” e nas “Merveilleux” franceses pós-Revolução Francesa. Tratavam-se de pessoas ainda favoráveis aos valores do Ancient Régime (Antigo Regime) referente à França monárquica pré-revolucionária. Estes, os “Inacreditáveis” e as “Maravilhosas”, ainda propunham uma visualidade de moda saudosista com as características da corte deposta, mantendo os significativos exageros visuais e comportamentais nas suas aparências típicas do Rococó. Os próprios exageros já eram considerados expressão de decadência naquele momento. Aí já podemos começar a entender o início da visão de mundo de Galliano para a moda e suas leituras estéticas baseadas no decadentismo.
Este conceito estético surgiu na França, via filosofia, literatura e artes, durante as duas últimas décadas do século 19. Tratou-se de uma proposta que se associava ao pessimismo, ao tédio, ao descrédito dos valores morais e dos costumes burgueses vigentes até então, emergindo em decadências de diversas ordens – política, social, moral, cultural – que fugiam à realidade do dia a dia explorando aspectos sensíveis e depressivos. Uma espécie de escapismo pelos prazeres sensuais e aspectos de extravagância individual de fuga à realidade promovendo características de infelicidade e de pessimismo. Foi associado ao movimento do Simbolismo em contraposição ao Realismo e ao Naturalismo, ainda em vigência nas artes daquele período. Talvez mesmo até podendo ser um prenúncio do vindouro Expressionismo, que vai valorizar o sofrimento, a deformação e as sensações intensas da alma. Vale acrescentar que o decadentismo não é um valor gratuito em si, e sim algo de fundamento filosófico que reflete nos fazeres artísticos ressaltando e evidenciando as angústias, sejam pessoais e/ou sociais, como forma de expressão de algo associado à alma sensível e que pode estar presente em diversos momentos da história como resposta a cada ar dos tempos. Em um possível e breve resumo, é algo de visualidade decadente, mas tem seu valor estético com características de não querer “perder a pose” sem ter muito mais a dar ou adicionar, porém, paradoxalmente, sempre acrescentando uma reflexão ao seu próprio tempo.
Voltando à moda propriamente dita, nesse mesmo período da formatura de Galliano em meados dos anos 1980, havia na moda francesa e, por extensão, na moda mundial, a prática do conceito do pauperisme (pauperismo) introduzido pelos japoneses em Paris, antes mesmo da difusão e prática da moda minimalista. Uma espécie de eco da Arte Povera (pobre, em italiano) que surgiu no cenário das artes nos anos 1960 e propunha o uso de materiais que seriam descartados, refugos e sucatas. Dentro desses fundamentos, os japoneses, como Yohji Yamamoto, Rei Kawakubo e Issey Miyake (1938-2022), propunham roupas oversized, sobreposições, peças rasgadas entre outras aparências “pobres”, tendo como inspiração os clochards parisienses (vagabundos, desocupados e, algumas vezes até associados aos mendigos em língua francesa).
Ali Galliano, na sua formatura, já havia feito uma significativa alusão às propostas decadentistas pois, os “Inacreditáveis” e as “Maravilhosas” eram aqueles saudosistas do fim do século 18, que, por meio de exageros e aspectos ultrapassados nas suas identidades visuais, valorizavam algo de decadente; amalgamando, então, ao pauperismo dos clochards de aspectos visuais dos típicos ociosos, indolentes, boêmios, entre outros; vindo a ser, assim, um prenúncio do seu propósito de moda.
Parece que isso ficou marcado nos valores estéticos de John Galliano, no seu DNA, pois estas premissas sempre estiveram presentes no seu processo criativo, porém acrescidas do aspecto paradoxal de sofisticação na própria decadência e, também, sempre atualizada aos tempos da moda e nunca, somente, no puro aspecto de saudosismo histórico da moda pretérita.
Estabelecido em Paris, Galliano já tendo a sua marca com seu próprio nome e fazendo sucesso de público e mídia, foi escolhido para trabalhar como costureiro e estilista da Casa Givenchy, isso em 1995, dando um novo alento à Maison, sendo, então, o primeiro ”britânico” a comandar uma tradicional casa de moda francesa. Dois anos mais tarde, em 1997, foi convidado por Bernard Arnault para assumir a Casa Dior, para levar a transgressão inglesa à outra casa tradicional da moda francesa. Assim o foi.
Na Dior, Galliano atuou de 1997 a 2011. Todavia, com seu inquestionável talento trouxe uma nova oxigenação à casa, tanto na alta-costura quanto no prêt-à-porter. Resgatou para a Maison Dior, e até mesmo para a moda em geral, devido à sua influência, o romantismo perdido sem as obviedades românticas comuns. Trouxe nova exuberância visual; valorizou o exagero e os barroquismos; priorizou o espetáculo fashion cenográfico e, mais do que tudo, trouxe nova e atualizada visibilidade para a Maison com um genuíno rejuvenescimento, pois favoreceu o desejo de consumo dos produtos Dior para as netas das respectivas avós que eram as grandes clientes de então. Posicionou a marca Dior aos novos tempos com muita maestria. Os “gallianismos” decadentistas impuseram-se como forte tendência visual, inclusive tendo uma coleção chez Dior inspirada em mendigos para a primavera-verão 2000. Porém, nem tudo dura o tempo todo.
Com a sua dispensa, Galliano aportou-se nos Estados Unidos tendo sido acolhido, em 2013, pela Casa Oscar de la Renta (segundo foi dito à época sendo uma solicitação de Anna Wintour) para uma incursão temporária de opiniões para a coleção outono-inverno 2014/2015. Em 2014, de volta à França, Galliano foi trabalhar chez Martin Margiela, belga que tinha sido assistente de Jean Paul Gaultier e que foi o grande fundamentador dos conceitos do desconstrutivismo na moda do início dos anos 1990. Eis a principal premissa que caracteriza o tal conceito: desconstruir para reconstruir de outra maneira, do caos emergindo uma nova forma. Fundamento estético baseado em conceitos, formas, volumes, texturas e matérias que fogem à moda mais tradicional. Na moda do dia a dia, reverberou em bainhas desfiadas, overloque aparente, peças usadas pelo avesso, patchworks, roupas disformes ou mesmo amorfas porém, com fundamentos conceituais característicos ao zeitgeist dos anos 1990. Eis uma nova proposta que foi amplamente difundida pela mídia e aceita pelo grande público. Galliano, não restam dúvidas, também bebeu, novamente, nesta fonte, caracterizando seu trabalho aos valores da nova marca para a qual passou a criar.
O próprio Martin Margiela sempre foi fiel aos seus próprios valores de formação e divulgação de moda. Contudo, John Galliano, aparentemente paradoxal à visualidade de certa forma mais purista de Margiela, ao assumir a direção artística da casa, em outubro de 2014, deu conta do fundamento por anos, tornando-se, então, a nova alma do desconstrutivismo na moda; depois de uma desconstrução psicológica e social da sua própria pessoa. Visual e opostamente às suas excentricidades pessoais, tornou-se de aparência mais tradicional.
Com o passar do tempo e com a confiança cada vez maior no seu propósito criativo, John Galliano marcou época na História da Moda e definiu novos paradigmas para imprimir com peculiaridade, propriedade e genuinidade o amálgama dos seus valores de formação e vividos durante seu percurso no mundo da moda ao apresentar o desfile da Maison Margiela para a alta costura verão 2024, em janeiro, em uma noite chuvosa (o que contribuiu para o clima decadentista) sob a Ponte Alexandre III, no Rio Sena, em Paris. Foi o último desfile da temporada, mas, certamente, não o menos importante. Ao contrário, foi o mais aclamado de todos, sem menosprezar os demais.
Ambiente cenográfico com característica erma, decadente, desconfortável, inquietante em um clima underground de um pub/bistrô de aparência questionável para a tão sofisticada Paris. O desfile começou e a surpresa foi grande, impactante e encantadora para todos. Modelos com corpos poeticamente construídos em desconstrução; aparência facial fria das bonecas de porcelana de séculos passados em maquiagem irretocável; golas/palas em porcelana de couro dando ideia de continuidade à maquiagem; roupas que fugiam do clássico previsível e sofis - ticado da alta-costura; desfilantes com passos e andares cambaleantes e cenográficos lembrando uma embriaguez ou uma deformação física, favorecendo a encenação; clima noir para o ambiente, cabelos-perucas despenteados em tons alternativos; acessórios intencionalmente de aspecto detonado; bordados feitos com cabelos (escumilhas) em tecidos transparentes simulando a nudez e os pelos pubianos; som em clima de taberna com coral e cantor em aparentes cenas de cinema; público convidado ao redor do apertado espaço interno e que migrava para o exterior debaixo da ponte, assim como as e os modelos em desfile performático; figuras agênero em corpetes intencio - nalmente apertados; sobreposição de meias e luvas desfiadas e rasgados que remetiam ao desgaste do uso e tempo nos joelhos e cotovelos das bonecas de porcelana, ou seja, uma inovação por intermédio da aparência decadentista questionável (e agora incontestável) para todo primor, sofisticação, elegância e refinamento peculiares à alta-costura. Tudo artisticamente muito conceitual, bem pensado e bem elaborado.
O desfile com iluminação e apresentação surpreendentes impactou não só Paris naquela noite, mas a todo o mundo da moda pela capacidade de sensibilizar pelo desprezível, pela inconformidade, pelo imprevisível, pela rebeldia, mesmo todos sabendo ter John Galliano como o diretor artístico da casa. Ali e naquele momento ele se superou.
O desfile conceitual imediatamente entrou para a História da Moda como um marco totalmente associado ao atual ar dos nossos tempos difíceis, belicosos, opressivos, confusos, abatidos, interrogativos, depreciativos e questionadores; agora transformados em valores e propostas anticlássicas. Uma verdadeira metamorfose revolucionária no processo criativo da moda.