Moda

Patricia Bonaldi fala sobre os novos passos da PatBO

Patricia Bonaldi sai da pandemia fortificando presença internacional com loja em Nova York e fazendo parte do line-up da principal semana de moda americana

Patrícia Bonaldi (Foto: Leo Faria)
Patricia Bonaldi (Foto: Leo Faria)

Patricia Bonaldi é alguém que sabe se equilibrar. Apesar de mais de 1 milhão de seguidores no Instagram pessoal, tem pleno controle de sua vida privada. Ao mesmo tempo, tem colocado sua PatBO em ritmo de crescimento, sem deixar de lado os bordados manuais com que ganhou fama. Com o amornar da pandemia, a marca ressurgiu com nova flagship nos Jardins, em São Paulo, e inaugurou loja em ponto importante no SoHo, em Nova York. Por telefone, a estilista e empresária conversou com a L’Officiel dois dias depois de desfilar na NYFW, estreando fisicamente após duas temporadas com participação digital. No papo, reflexões sobre como empreender em meio ao caos sem sair de sua base em Uberlândia nem deixar a marca escapar das mãos.

Patrícia Bonaldi - PatBO
Alessandra Ambrosio, estrela do desfile de estreia (Foto: Dan Lecca)

L’Officiel: Você foi a primeira brasileira a voltar a desfilar presencialmente, depois dessa quarentena toda. Como foi essa chegada em Nova York?

PATRICIA BONALDI: Ainda não tinha pensado nesse detalhe de ser a primeira! Foi tudo incrível, nem parecia que era nossa estreia física por aqui. Atribuo isso à forma como construímos a internacionalização da PatBO. Como fizemos no Brasil, não começamos desfilando: a marca primeiro achou o seu espaço, entrando nas lojas, na Bergdorf Goodman, na Saks. Já temos mais de 150 pontos de venda pelo mundo, 72 nos EUA. É uma história real, do jeito que acredito.

L’O: Foi uma chegada bem estruturada, então. 

PB: Com certeza, não foi nada forçado. Fiquei orgulhosa por ver como aconteceu. A marca existe de fato, as pessoas estão usando. O desfile foi o momento de mostrar a coleção de alguém que todos que estavam ali conhecem, tanto celebridades quanto buyers. Não é que aparecemos do nada. Foram quatro anos trabalhando do jeito que acho certo: fazendo roupa. Não vim a Nova York para fazer fama. Se eu “ficar famosa” pela minha roupa, é consequência. Acredito que esse é o caminho para construir uma carreira no mercado maduro que eles têm aqui: olhar para a coisa como um todo, não só focar no lado do ego. Se você está trabalhando com consistência, as coisas acontecem.

L’O: A pandemia deu uma travada nesses planos todos, eu imagino. 

PB: Os primeiros meses foram superdifíceis, como para todo mundo. Ficamos congelados até conseguir retomar, aos poucos. Mas sem normalidade, pois essa palavra nem tem sentido atualmente. Quem insiste nisso está contando uma história que não existiu. Ao mesmo tempo, as empresas que foram um pouco inteligentes aprenderam nessa fase. Nós ficamos muito mais ligados no reaproveitamento de estoque, no cuidado com desperdícios de matéria-prima. Olhamos muito para dentro, para o que estava sendo feito e de que maneira. Em paralelo, fiquei esse tempo todo em Uberlândia e me reconectei com a minha família. Isso foi transformador. Eu vivia muito no automático de manter a empresa como prioridade, nem me orgulho disso. Esse tempo me ajudou a entender o que realmente queria. 

Patrícia Bonaldi - PatBO
Momento da coleção de verão da PatBO apresentada em Nova York: uma versão easy, mas sem abrir mão dos preciosos bordados da marca (Foto: Leo Faria)

As oficinas de bordados manuais não foram uma dificuldade extra nesse período?

PB Como nós não estávamos vendendo muito, foi um imenso desacelerar. Não havia opção. Era um momento de segurar a onda. Seguramos a onda de muita gente, muita gente segurou a nossa. É a primeira vez que todo mundo foi afetado pelo mesmo problema. 

Agora, com uma abertura mínima, você chegou tirando o atraso: duas lojas importantes, desfile na NYFW...

PB Foi quando achei um ótimo momento para ser um pouco mais ousada. Havia uma situação competitiva interessante, até no sentido de conseguirmos melhores negociações, que não seriam tão simples em outro contexto. Achamos a loja no SoHo, um imóvel de 460 metros. Foram seis meses de obra. Aproveitamos a oportunidade de conseguir um ponto no momento em que todo mundo estava mais paralisado. Não esperava que tudo isso acontecesse nessa proporção, de verdade. Até pode parecer que aconteceu do nada, mas é um caminho que foi construído.

L’O: Dois anos atrás, em outro papo nosso para a L’Officiel, lembro que você falou muito sobre trabalhar sob adversidades.

PB: E foi antes de tudo isso que aconteceu, né? Uso muito essa palavra, pois ela define a minha vida, como tenho erguido a carreira durante esse tempo. Por isso que, neste momento de pandemia, consegui lidar com racionalidade. Eu reajo bem a situações de estresse, é como eu cresci. Tenho perfil de trabalhar bem sob pressão. Obviamente não é tão saudável, mas é quase um modo de sobrevivência.

Patrícia Bonaldi - PatBO
Momento da coleção de verão da PatBO apresentada em Nova York: uma versão easy, mas sem abrir mão dos preciosos bordados da marca Foto: Leo Faria

L’O: Como você cuida dessa cabeça?

PB: Dá um trabalho, viu? Esses dias, fui a um mago e ele disse: “Você vai ter um curto-circuito!”. Mas sou uma pessoa muito ligada à espiritualidade. Ao mesmo tempo, não sou muito social, saio pouco. Trabalho demais, mas depois sei me desligar. Faço bastante yoga, medito. Tenho esse lado zen que não aparece, pois não faço da minha vida um reality. Então exercito muito esse outro lado, para dar conta de tudo. 

Foi um imenso desacelerar. Não havia opção. Era um momento de segurar a onda. Seguramos a onda de muita gente, muita gente segurou a nossa. É a primeira vez que todo mundo foi afetado pelo mesmo problema.

L’O: Li em algum lugar que você virou adepta de sons binaurais, é isso mesmo?

PB Sim, demais! Tenho estudado muito esse assunto. Ouço o dia inteiro, me acalma demais. Equilibra de verdade, não só no trabalho. Se tiver de ficar horas parada, como no cabeleireiro, por exemplo, eu não consigo ficar só no bate-papo – peço licença e coloco o fone de ouvido, me ajuda a não ficar ansiosa.

L’O: Vendo o desfile, senti que você não tentou adaptar a imagem da PatBO para conquistar o público novo. Foi uma opção racional?

PB Não tentei mesmo. E isso se reflete em tudo, da coleção da passarela ao comercial que vai para a venda. Ao mesmo tempo, foi a maior pressão que já vivi, profissionalmente, esse conflito de decidir o que apresentaríamos. Entrei na pira de alterar tudo, voltei, mudei mil vezes. É uma pressão infinita, mesmo sabendo que ninguém ali teria um histórico de comparação, exatamente por ser uma estreia. No fim das contas, quando pacifiquei o que tinha na cabeça, eu falei: é isso que sei fazer, então é isso que vou mostrar. Claro que de outra maneira, mas quem já conhece vai ver e falar “isso aqui é PatBO”. Não estamos tentando ser alguém que já existe nos EUA. Apesar de ser uma roupa supertrabalhada, o resultado ficou de um jeito chique e cool – ainda que easy, meio que traduzido para eles. Nada de maquiagem, nada de salto, nada de acessórios. É a roupa pela roupa, que já é tão especial e tão elaborada que não precisa de mais nada.

Patrícia Bonaldi - PatBO
(Foto: Dan Lecca)

E sem se colocar no lugar da brasileira que tenta se adaptar ao olhar exotificante do outro, correndo o risco de virar caricatura.

PB Aí voltamos naquele exemplo de quem vem para cá só em busca de aclamação. Quando você foge de quem você é, do que já tem construído, e se desconecta da história para se mostrar a partir do olho do outro.

L’O Você sentiu que não há então esse olhar externo? Essa expectativa de apresentar uma “moda brasileira”?

PB Eu não percebo, não acredito que exista essa caricaturização. Há os atributos genéricos, claro, da mulher feminina e muito sensual. Ao mesmo tempo, há adjetivos que me agradam. Quando fizemos a collab global com a Converse, recebi uma apresentação de análise que eles fizeram sobre a PatBO. Na descrição, usaram palavras como colorful, playful, fearless; é como eles viam a marca. Acho que esses atributos, de certa forma, combinam com a maneira como somos vistos. Nossa moral até pode estar um pouco em baixa atualmente, mas estou falando sobre uma percepção geral sobre a cultura brasileira. Não acho que eles esperem que surja um tucano ou uma banana. E jamais farei isso, apropriar-me de coisas muito óbvias para capitalizar.

O segredo então é se manter na base.

PB Eu acho. Se você analisa a PatBO, nota uma evolução nítida de olhar, de construção. É algo inegável. Ao mesmo tempo, também há um fio que vai se desenrolando. Não é sobre parar no tempo e seguir fazendo a mesma coisa pelo resto da vida. É saber se traduzir de maneiras diferentes, de acordo com o tempo em que você está, com o que aprendeu. É uma grande narrativa, e a cliente vê isso também. É quase uma viagem com as pessoas.

Patrícia Bonaldi - PatBO
(Foto: Leo Faria)

L’O: Como está este momento de libertação da quarentena em Nova York?

PB: A vontade de viver é nítida. Aquela discussão de que as pessoas sairiam da pandemia querendo uma vida mais simples não é o que vejo aqui. As pessoas estão desesperadas para viver, celebrar e consumir. Uma energia de fazer coisas. Claro que, numa sociedade capitalista como vivemos, ainda mais aqui, para muitos isso extravasa em compras. As lojas de luxo, todas têm filas. Mas o mais legal é essa sensação de “estamos livres”, vacinando. Essa sensação de sair desse pesadelo vai se expressar de muitas maneiras. Ainda não dá para sentir como será no Brasil, mas por aqui é como se o problema não estivesse mais no ar. As pessoas estão muito animadas a voltar a viver. 

L’O: E isso é resultado de um pacto social.

PB: Pois é. Há uma lição no ar. Todos tivemos a oportunidade de entender que é uma questão coletiva, não adianta achar que você pode resolver só o seu lado. Do que adianta você estar saudável e o seu funcionário não? A mensagem que ficou é um cartaz escrito “ou as coisas melhoram para todos ou elas podem explodir a qualquer momento”.

L’O: Esse crescimento da PatBO já tem os próximos passos definidos?

PB: Pode até parecer que somos uma empresa gigante, pelas conquistas que aparecem, mas temos controle total desse crescimento. Ainda nem começamos, há muito espaço. Abrir nos EUA foi só o primeiro passo. Ainda assim, quero que as coisas aconteçam quando for a hora, sem mirar num pódio louco. Costumo levar a vida como um videogame. Para passar de fase, tenho de achar a chave no fim desta. Não há milagre nem como cortar caminho. Tivemos ofertas recentes de grupos interessados em comprar a PatBO, e eu decidi que não venderei. Sei o tamanho que queremos ter, e o mais importante, para mim, é a liberdade. Não quero deixar a marca ser maior do que ela tem de ser – ou deixará de ser o que é. Quero poder manter o trabalho manual, e isso é algo impossível na realidade de uma marca vendida para grandes grupos. Tudo o que construí até hoje está debaixo de mim. Crescemos organicamente, sem injeções artificiais, e o nosso sucesso é legítimo. Não posso, de repente, virar uma funcionária que não tem voz na engrenagem. Eu não acredito nisso. Quero manter o passo no ritmo que tem a ver com o meu. É meu nome, minha imagem. Não dá para entregar isso apenas pelo dinheiro.

As pessoas estão desesperadas para viver, celebrar e consumir. Uma energia de fazer coisas. Claro que, numa sociedade capitalista como vivemos, ainda mais aqui, para muitos isso extravasa em compras.

Patrícia Bonaldi - PatBO
(Foto: Dan Lecca)

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