Humberto Campana: o meio ambiente no recém-inaugurado Parque Campana
Humberto Campana vai do objeto a uma escala maior em obras em comunhão com o meio ambiente e na regeneração de biomas no recém-inaugurado Parque Campana
A ressignificação de formas e materiais é marca registrada das obras dos irmãos Campana. Foi assim que Humberto e Fernando (1961-2022) conquistaram, por exemplo, espaço sólido no projeto Objets Nomades da Louis Vuitton, e a Cadeira Vermelha, feita de 300 metros de corda, ganhou espaço cativo no acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Em 2009, eles criaram o Instituto Campana, com a missão de promover transformação social por meio do design, que agora amplia o propósito para questões ambientais com o recém-inaugurado Parque Campana, localizado na cidade natal dos designers, Brotas, a cerca de três horas da capital paulista.
Localizado na fazenda de 78 hectares herdada do pai, o projeto começou a ganhar forma durante a pandemia, quando ambos encontraram refúgio ali. Em meio às árvores e mirando as estrelas no alto do mirante onde agora está um altar ecumênico em memória de Fernando, a dupla decidiu misturar arte, design, educação e regeneração do cerrado e da mata atlântica na área que já foi destinada ao pasto, que está sob os cuidados do diretor científico do parque, Gerd Sparovek, com o suporte do GeoLab, laboratório de planejamento de uso do solo e conservação, do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura da USP. A expectativa é que em cinco anos as árvores cresçam e animais nativos retornem a essas áreas.
O ponto de partida foi investir em algo para que a natureza criasse a arquitetura com bambu, cactos e agave e despertasse o desejo de contemplação: ouvir os pássaros e o balanço das árvores, perceber os estágios de crescimento de uma floresta e sentir a brisa. Conexões com a infância de ambos também estão por todos os lados. “O Pavilhão de Mandacaru é uma referência direta às cercas dos meus vizinhos de quando eu morava em Brotas. Eu trouxe isso de uma forma muito consciente, já sabendo quanto isso vai crescer e quanto precisa de chuva. As palhas, os eucaliptos, todos esses materiais com os quais eu cresci, agora trago com um olhar mais maduro e sofisticado”, conta Humberto em entrevista à L’OFFICIEL.
Há, ainda, o Pavilhão dos Eucaliptos, inspirado na arquitetura de Oscar Niemeyer em Brasília, a Catedral de Bambu, com espreguiçadeiras de pedra dispostas em um amplo círculo, o Pavilhão de Concreto e Agave – que é um campo de colunas de diversas alturas, como cristais brotando do chão, sustentando plantas, e espelhos-d’água de pedras.
Ainda sem apoio financeiro público ou privado para bancar todas as despesas do parque, o designer conta que, para utilizar ao máximo os recursos que possui, buscou usar materiais de baixo custo ou já disponíveis no local. “Exatamente como nós começamos, Fernando e eu, criando objetos com o que tínhamos à mão: cordas, papelão, mangueira, terra. É um retorno a essa direção, a esse desafio criativo, porém em grande escala e com toda a experiência que ganhamos nestes 40 anos”, analisa.
Um curta-metragem de 2022, lançado pelo Centro Pompidou apenas um mês antes da morte de Fernando, mostra os irmãos caminhando pelas esculturas, e Fernando explica: “Eu vejo o transplante do DNA dos móveis para a natureza, em uma escala maior”. Espalhadas pelo parque estão sete das 12 obras monumentais previstas, cada uma representando uma cidade etrusca e remetendo à origem toscana da família. “E, também, porque a Itália é o lugar que nos tornou conhecidos internacionalmente”, disse Humberto no fim de junho, antes de cortar a fita vermelha, durante o soft opening do projeto. O parque deve receber, no futuro, um café, um pequeno museu, uma área para oficinas de manualidades e um espaço de pesquisa acadêmica para regeneração de biomas. É aberto ao público, mas as visitas precisam ser agendadas no instituto.
L’OFFICIEL O trabalho de vocês sempre esteve ligado à ressignificação de objetos e de materiais. O transplante do DNA dos móveis para a natureza e o diálogo entre eles aponta também para uma reestruturação paisagística?
HUMBERTO CAMPANA Sim, com certeza. Eu saí da escala do objeto e fui para uma escala maior. Foi um grande desafio me atentar a não poluir a paisagem com os pavilhões, e sim construir algo com harmonia, integrada à natureza.
L’O Um dos objetivos do parque é que ele seja um lugar de contemplação. Como você imagina a visitação pública mantendo essa atmosfera de comunhão com a natureza?
HC O parque tem uma linguagem visual que já indica essa vocação para a contemplação. São espaços que convidam a experimentar os sentidos, a perceber perfumes, sons, luz, texturas. Para isso, é preciso silêncio, tranquilidade. A ideia é ter um número limitado de pessoas para permitir que isso aconteça.
L’O Recentemente, você construiu um caminho com referências a diversas religiões que leva a um altar em memória do Fernando, no mirante onde vocês estiveram juntos várias vezes. Como você descreve o sentimento/a intenção que envolve a criação desse espaço?
HC Essa homenagem ao Fernando é algo que eu tinha que fazer, estava imbuída inconscientemente em meu espírito. A torre de observação foi a primeira estrutura construída no sítio. Era o lugar que Fernando mais gostava de estar, de ficar observando o topo das árvores, o pôr do sol. Passei muitos momentos bonitos com ele lá. As figuras religiosas foram uma maneira que encontrei de materializar essa homenagem, mas a torre em si é a melhor representação do Fernando ali, da magnitude da sua importância na minha vida. Sinto que as figuras ainda precisam se enraizar na mata, receber a natureza do entorno, e então, com o tempo, elas ganharão mais sentido.
L’O Já foram plantadas 20 mil mudas de árvores nativas da mata atlântica, e a proposta é restaurar outra grande parte da fazenda que já foi destinada ao pasto. Qual a projeção para essa área?
HC Essa pesquisa de regeneração de biomas está a cargo do diretor científico do parque, Gerd Sparavok. O plano para o início desse projeto é 2025 e é o que mais vai demandar tempo para mostrar resultados, pois segue o tempo da natureza.
L’O Você acredita que, por intermédio de uma arte sustentável, o parque possa inspirar mudanças sociais e culturais em prol de uma relação mais amigável do ser humano com a natureza?
HC Sim, não tenho a menor dúvida. Isso já está acontecendo. Os próprios funcionários que contratamos (pedreiro, marceneiro, soldador) vieram me dizer como trabalhar no parque mudou a visão de mundo deles e como é importante respeitar a natureza em suas profissões e na vida. Isso me deixou extremamente feliz. É um efeito dominó, e espero que chegue a muitas pessoas.
L’O Pensando no futuro, como você enxerga a aliança entre a arte e a biologia?
HC A arte é o remédio necessário hoje e no futuro. Com a escassez de recursos do planeta, cada vez mais precisaremos nos aliar à biologia para minimizar danos no nosso planeta para produzir o que for. Já temos a difusão da impressão 3D, que usa biomateriais para construções, ou tecidos que emulam nossa pele e diversas outras possibilidades que serão cada vez mais utilizadas e mais presentes.