Procedimento estético proibido no Brasil domina o mundo da beleza
Diminuir a gordura localizada é o desejo de muitas pessoas que procuram procedimentos estéticos. Mas o que fazer quando um deles, que está voltando a ganhar atenção, não é regulado no Brasil?
Modismos fazem parte dos mais diversos segmentos de consumo e de comportamento. Com a beleza isso não seria diferente. A questão é que mudar o acabamento de uma base, de mate para iluminada, ou o tom do batom, de vermelho para nude, não traz grandes consequências para a saúde se comparado ao sobe e desce em popularidade de tratamentos estéticos. Já dá para notar uma ressaca do tsunami que é a harmonização facial, com pessoas tendo que encarar novas injeções para reverter resultados pouco naturais e até efeitos colaterais graves, como infecções. Mas há outra técnica que tem inúmeros elementos para galgar o posto de problema e ela tem o nome popular de “Emptiers”
Picadinhas
“Os emptiers (ou esvaziadores) são substâncias que destroem a parede da célula de gordura. Quando isso acontece, existe uma morte celular na qual não se recupera a gordura que foi destruída naquele espaço. Na idade adulta, os adipócitos só crescem em tamanho, não em número. Por isso, os emptiers são substâncias eficazes para tratar pequenos acúmulos de gordura localizada – claro que quando bem utilizados e por mãos treinadas. As principais substâncias são a fosfatidilcolina e o desoxicolato”, diz Bianca Viscomi, dermatologista.
Esse tipo de tratamento ficou muito conhecido nos anos 1990 no país e era possível encontrá-lo até em salões de beleza, parcelado em várias vezes sem juros. A promessa era tentadora: acabar com a barriguinha “pochete” em poucas agulhadas. Mas não é assim. “O grande problema foi cair nas mãos de profissionais não médicos que aplicavam as substâncias de maneira indevida e com técnica errada, resultando em complicações advindas do uso incorreto, como necrose da pele e infecções”, afirma Bianca.
Outra grande – talvez a maior delas – questão negativa envolvendo os emptiers é a ausência de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para injetar tais ativos. “Realmente os emptiers não têm aprovação da Anvisa, embora existam trabalhos que sustentem o uso dos produtos. Inclusive, nos Estados Unidos há o KyBella, que tem aprovação do órgão regulador de lá – o FDA (Food and Drug Administration) – para o tratamento da gordura da papada”, diz Bianca.
A dermatologista colaboradora da unidade de cosmiatria da Escola Paulista de Medicina, Lilia Guadanhim, reforça que o produto para a papada, que tem mais artigos científicos publicados, realmente não está disponível em solo nacional. “Os efeitos colaterais dos chamados emptiers podem ser relacionados à má técnica, como irregularidades, bolhas e até necrose da pele, além de complicações infecciosas, como as microbacterioses”, pontua. “Aqui no Brasil não temos produtos regulados para serem injetados, e sim aplicados topicamente, constando em bula. Para regular uma substância injetável é necessário mais pesquisa, que ainda não existe. O segundo problema é que alguns produtos usados têm uma substância chamada fosfatidilcolina, proibida no Brasil, pela Anvisa, há vários anos. Só que é o famoso ‘a regra não pegou’, pois muita gente continua aplicando. Também há muito produto manipulado nessa área, sem controle, então sua banalização virou uma sangria desatada, além do resultado não ser excepcional”, alerta Lilia. Resumindo, redes sociais e boca a boca não garantem que algo feito sob a chancela estética seja seguro. Tratamentos são bem-vindos, porém precisam vir junto com parcimônia e muita bagagem científica, principalmente quando pensamos em injetáveis. Uma picadinha em prol da beleza, em um consultório, nem sempre é inofensiva.