Carpinejar: quais os limites do cancelamento virtual?
A cultura das redes sociais de “renegar” usuários de forma massiva divide opiniões, segundo Fabrício Carpinejar
Cancelar virou o verbo mais ativo nas redes sociais. Se você fez algo controverso, pode ser cancelado pelos amigos. Se for figura pública, o “cancelamento” é em massa! Os tão valiosos seguidores de um influenciador podem sumir em poucos dias, como forma de boicote. Os patrocinadores de tais formadores de opinião também seguem o mesmo caminho, para não vincular sua imagem a do “cancelado”.
Mas e aí, é certo ou é errado tal tática? Nós, da Revista L’Officiel, decidimos então bater um papo com o poeta Fabrício Carpinejar, que acaba de lançar um livro com reflexões em tempos de isolamento. O que ele acha dessa cultura intensa e controversa?
Revista L’Officiel - O que você acha da "cultura do cancelamento" que assola as redes sociais?
Carpinejar - Cada vez mais o avatar precisa estar conectado a uma vida de verdade. Ninguém consegue fingir durante muito tempo algo que não é. Preconceitos surgirão da ostentação indevida. Da mesma forma que elogios vêm de atitudes sinceras, críticas e vaias surgirão do egoísmo e da alienação. O excesso de visibilidade somente é nocivo para quem não se garante.
Revista L’Officiel - Esquecemos que somos imperfeitos em ambientes virtuais? Como lidar com isso?
Carpinejar - Sendo imperfeitos. Não há problema quando temos a humildade da autocrítica. A questão fica perigosa se alguém se acha acima do bem e do mal porque tem milhões de seguidores. São seguidores, não são fiéis. Há um equívoco da celebridade se achar uma religião. Mostre a sua humanidade antes de pedir por ela.
Revista L’Officiel - Você aconselharia uma pessoa que foi cancelada por um post a apagá-lo ou o melhor é pedir desculpa e bola pra frente?
Carpinejar - O que eu faço: escrevo explicando, linkando ao post anterior, e dando explicações do motivo de ter mudado de opinião. O perdão tem que ser didático. Não adianta ficar ofendido por evoluir. Apagar é uma tentativa de manter a perfeição, apenas mostra constrangimento de enfrentar a responsabilidade.
Revista L’Officiel - Você já foi cancelado?
Carpinejar - Que eu saiba não. Mas, se eu fosse, pelos motivos certos, pela defesa do caráter, até seria uma honra. Às vezes somos cancelados somente por defender um país melhor.
Revista L’Officiel - Já teve vontade de cancelar alguém ou alguma coisa?
Carpinejar - Os robôs; mas eles não sentiram nada. Nem demonstram resistência. Posso dizer também que, como todo mundo, gostaria de cancelar o covid-19.
Revista L’Officiel - Por que é tão difícil para algumas pessoas conviver com quem pensa diferente?
Carpinejar - Porque desejam a bajulação. Acreditam que todo mundo é obrigado a gostar do que fazem. Não admitem o contraponto, a oposição e a contrariedade. Eu já guardo a noção de que nem em minha família sou unânime. O consenso é falta de personalidade.
Eu só não aceito desaforo. Se deseja me contradizer, use a educação.
Revista L’Officiel - O que acha do ato de deletar em massa os posts das redes sociais, como forma de apagar o passado e evitar ser "cancelado"?
Carpinejar - Não há como apagar. É só um seguidor fazer print que aumentará ainda mais o mal-estar. Portanto, cabe pensar duas vezes e sentir três vezes antes de escrever nas redes sociais. A honra não tem direito mais a rascunhos.
Revista L’Officiel - Como foi escrever o livro “Colo, por favor!” (lançamento) e quais seus planos futuros?
Carpinejar - O livro foi minha cruzada emocional para enfrentar o medo. Não poderia deixar que ele me paralisasse. Estou parado no mesmo lugar, mas jamais parado dentro de mim. Eu procuro salvar a poesia, a delicadeza, a gentileza do ambiente tenso, predatório e individualista da sobrevivência. De planos futuros, não sei do meu futuro mais. Cuido de um dia de cada vez, e agora improviso mais do que planejo.
Revista L’Officiel - O que te levou a escrevê-lo?
Carpinejar - Comecei escrevendo nos meus primeiros dias de confinamento, para decifrar o que estava acontecendo socialmente e matar a saudade de meus pais e de meus filhos. Ser forte não é represar as emoções. É não esconder a própria fragilidade. A empatia nasce da coragem de expor os sentimentos.
Eu decidi colocar para fora todo o meu amor. Cansei das indiretas do orgulho e da crença confortável de que o outro sabe o que sentimos. Prefiro que saiba da minha boca, para não restar dúvidas. Um exemplo disso em “Colo, por favor” é a minha relação com a tia Cléa, irmã de minha mãe. Nunca havia declarado “eu te amo” para ela. Ficava subentendido. E esse subentendido é muito perigoso. Tive que quase perdê-la pelo coronavírus para tomar vergonha no coração. Por pouco, muito pouco, não criei um remorso eterno. A preguiça mata a memória.
Poeta, cronista e jornalista brasileiro, Carpinejar acaba de lançar o primeiro livro sobre a quarentena. “Colo, por favor! Reflexões em tempos de isolamento” mescla ensaios biográficos que abordam a quarentena de forma reflexiva. A obra foi lançada dia 06/04, em formato e-book, pela Editora Planeta e já está entre os 150 mais vendidos no Brasil pela Amazon, além de liderar a seção de literatura e ficção. Quem comprar a obra na Livraria Da Vila, 10% do valor irá para o Hospital das Clínicas, em São Paulo.