Pethra Ferraz fala sobre desafios de liderança
Natural de Niterói, cidade vizinha do Rio de Janeiro, Pethra dificilmente conseguia se imaginar vivendo em São Paulo, tornando-se uma executiva, liderando a área de marketing de uma grande empresa. Fez engenharia química na UFRJ, mas não se identificou com o curso. Explorando as possibilidades, entrou como trainee na Ambev, em 2002. Em dois anos, foi transferida para São Paulo. De lá para cá, passou por basicamente todas as áreas e marcas da empresa, cuidou da comunicação, de eventos, de inovação. E começou sua busca pelo novo. “Em 2008, fiz minha primeira movimentação para a Whirlpool, para ampliar meu olhar sobre marketing. Em oito anos, eu me mudei para a indústria de alimentos, na qual liderei a Perdigão e o time de inovação global”, conta ela. Foi quando, há alguns anos, decidiu que precisava de uma virada na carreira e migrou para outro segmento completamente diferente: o mercado financeiro, liderando o time de marketing da XP Inc.
“Quando penso na menina que ia para a escola de bicicleta e depois à praia, é difícil imaginar que estaria onde estou hoje. Acredito que, com o estímulo dos meus pais, cheguei até aqui. Sempre tive a independência, seja ela financeira, seja emocional, como meu principal valor.” Pethra acredita que o que realmente a diferencia é a forma como lida com as situações e os desafios. “O importante é estar sempre aberta a aprender, a entender coisas novas, a acreditar que dá para fazer melhor e diferente. É muito sobre esse processo de aprendizagem contínua, de desenvolvimento, de reinvenção. Nunca podemos nos considerar especialistas em nada porque, na prática, hoje em dia, com a velocidade com que as coisas mudam, é impossível pensar que somos experts em algum tema específico, não é?” Para ela, tudo é questão de ter bom senso, fazer as perguntas certas e, finalmente, não ter medo de errar.
A seguir, ela fala de maternidade, do mundo corporativo predominantemente masculino, do jeito feminino de comandar e de como vê o mundo pós-pandemia.
A mulher tem um jeito único de comandar? Quais as sutilezas que passam batidas por um homem?
Acredito que existem traços de comportamento que estão presentes majoritariamente nas mulheres, como a sutileza de entender o outro, de perceber o outro. Quando a liderança é feminina, os processos tendem a ser mais colaborativos, de mais acolhimento e cuidado. Acho que as mulheres conseguem trazer empatia. Converso e compartilho com o time que meu principal papel é viabilizar que todos possam se sentir preparados e com as ferramentas necessárias para entregar cada vez mais. Na prática, direciono, ofereço suporte e abro o caminho para que os colaboradores possam ir cada vez mais longe. Em um novo mundo, a economia tende a ser muito menos competitiva e muito mais colaborativa.
As mulheres têm um dom inato para a liderança?
A liderança feminina conversa muito com o momento atual, de conhecimento compartilhado, de desenvolvimento de pessoas e de empoderamento – menos sobre os pontos fracos e mais como a gente potencializa os pontos fortes. Fazendo um paralelo entre maternidade e mundo corpora- tivo, nosso papel é entender a essência de cada indivíduo (sejam os filhos, sejam os colaboradores), conhecê-los e ajudá-los a desenvolver seu potencial máximo por meio de tudo o que possuem de melhor.
Como é sua rotina com casa, filhos e a XP? Ela mudou muito nesse período de home office por conta da pandemia?
A rotina de home office mudou tudo. As minhas manhãs, no geral, têm sido muito mais calmas e conseguimos ter muito mais momentos em família. Meus filhos me respeitam bastante, sabem que estou trabalhando. Conhecem o meu espaço e entendem os momentos em que eles podem me interromper ou não. Claro que entram de vez em quando nas reuniões, aparecem nos vídeos, mas eu acho que isso tudo hoje faz parte dessa nova rotina. É desafiador ter de criar essas novas regras, mas creio que a gente conseguiu ganhar muito tempo em conjunto, compartilhar pequenas rotinas do dia a dia. Estamos muito mais próximos, e isso cria uma conexão muito bonita de se ver.
Como é atuar em um mercado ainda muito masculino, como o de investimentos?
Acho que não só o mercado financeiro, mas as grandes empresas em geral tendem ainda a ser muito mais masculinas. Não vejo isso necessariamente como uma barreira ou como um ponto de dificuldade, mas como uma oportunidade. A XP acredita na diversidade, nas opiniões variadas e em fazer melhor e diferente. Eu me sinto muito respeitada e empoderada para trazer questionamentos e cada vez mais preparar a companhia para ter mais diversidade – e não só de gênero, mas em todos os sentidos. Só assim podemos, de forma muito legítima, acolher opiniões diferentes: apenas por meio da riqueza de perfis, de experiências e de contextos. Falando especificamente de gênero, a XP é uma empresa que vem provocando mudança no mercado financeiro. No ano passado, colocamos uma meta de chegar a 50% de mulheres na empresa. Já estávamos com 22% no meio de 2020 e hoje já estamos com 28%.
Qual o conselho que gostaria de ter recebido há dez anos?
Um conselho que eu gostaria de ter recebido é o de respeitar um pouco mais a minha essência e o meu jeito de ser. A gente acaba se comparando aos homens e tenta desenvolver traços muito parecidos aos deles porque acredita que é assim que vai conseguir se desenvolver na carreira. Hoje, tenho plena certeza de que não é sobre isso. É sobre esforço e intenção. O conselho que eu daria seria para as mulheres: sejam vocês mesmas, não tentem se enquadrar em padrões porque, se você não se sente bem em uma empresa, esse não é o lugar para você.
Acha que 2020 e 2021 mudarão completamente nosso jeito de viver?
A única certeza que eu tenho é que depois de tudo isso que a gente viveu em 2020 e estamos vivendo em 2021 nada vai ser igual ao que era. A gente eliminou as fronteiras entre trabalho e vida pessoal e obviamente teve benefícios e pontos de desafio nessa falta de limite tão clara. Mas acredito que conseguimos experimentar, mesmo que de maneira forçada, um jeito novo de trabalhar, com mais flexibilidade, confiança e foco no resultado do que na dedicação de tempo especificamente. Mas faz muita falta o olho no olho para a construção de relação de confiança e de parceria no dia a dia. Mas não precisa ser burocrático e formal como antes.