Milão 22: As apostas do quarto dia de desfiles
Era moda que a gente queria, né? No penúltimo dia da fashion week de Milão, finalmente, marcas como David Catalán, Miguel Vieira, Vìen, Han Kjøberhavn e MSGM mostraram algum ineditismo.
O português Miguel Vieira fez a sua releitura do movimento grunge, com estruturas mais femininas, tecidos metálicos e muito preto sobre preto (no máximo, com direito a uma estampinha zebrada). Já o conterrâneo Catalán preferiu manter o olhar no streetwear, com poesia tirada dos livros de Antoine St. Exupéry. Os conjuntos circularam livremente pela coleção, assim como as jaquetas grandalhonas, os tricôs com losangos retrôs, os jeans e a camisaria com laçarote. Verde néon, mostarda, cinza, bege e outros terrosos contrastam com o tie-dye – pausa dramática para uma franzidinha na testa – e com o prateado reluzente (que ninguém vai usar, mas que foi a sensação da temporada).
A Vìen tirou o pó do acervo do Sex Pistols e adicionou alguns looks genuinamente napolitanos para dar a sua contribuição ao punk moderno. Coturnos, ternos reconfigurados, óculos de neve adaptados para a vida urbana e jaquetas de couro salpicadas de zíperes são as apostas da grife. Tudo absolutamente arrasador.
Já a MSGM ousou com uma apresentação potente, hipercolorida e extremamente sensorial (e sexual). As peças, embora comerciais, descrevem a geração atual, sem amarras, sem discursos caretas e sem tempo para justificativas. Um sex appeal necessário para o recomeço pós-pandemia. Para encerrar, o conceitual apocalíptico do dinamarquês Han Kjøberhavn fez o caminho contrário das badaladas maisons para tramar as suas proporções maximizadas. Pele, couro, alfaiataria e moletom altamente andrógenos comprovam que a arte precisa incomodar e que a moda tem que sobreviver aos chatos.