SPFW N52: veja os highlights do terceiro dia de evento
De Weider Silverio a João Pimenta, confira todos os detalhes e destaques do terceiro dia de SPFW N52
Weider Silverio
Na estreia oficial dentro do SPFW (depois de uma entrada digital na temporada passada), Weider Silveiro fez o que melhor sabe fazer: roupas. Com carreira considerável e longa passagem pela Casa de Criadores, ele não quis se esconder atrás de loucurinhas de passarela ou exageros autorais. Está mais em busca de bulir suas vontades de moda para conquistar suas clientes que querem ficar bonitas, não esquisitas. E essa é sua maior vantagem: a sinceridade. Tanto que, em conversa pré-desfile, nem tenta esconder referências em trabalhos de estilistas que admira.
Longe de questões de cópias, ele fala com franqueza que pode sim remexer em coleções alheias que admira para exibi-las sob seu filtro particular. É assim que a moda (decente) funciona desde sempre, afinal. Pra que disfarçar? O tom urbano desta coleção respinga em uma vontade grunge — e para isso ele olha para aquele momento clássico by Marc Jacobs na Perry Ellis, em 1993. Mas é uma espiada de leve, pois o grunge aqui não é caricato (como era na coleção do norte-americano). É mais um élan, que guia os xadrezes e algumas modelagens mais largas. A vontade aqui, de fato, é por produto com twist. E daí ele acerta a mão com modelagens secas nos vestidos e jumpsuits colados, no tricô handmade, nas malharias atoalhadas e caneladas que dão em momentos confortáveis em referências a moletons (com ótimas barbatanas refazendo a silhueta), florais que poderiam estar em uma camiseta do Alice in Chains e plissados para uma garota mais movimentosa. Às vezes, não querer reinventar a roda (ou a moda) é o melhor negócio.
João Pimenta
Qual é seu nível de normal no novo normal? Se ninguém está saindo ileso da pandemia, João Pimenta também não pretende disfarçar que segue tudo nos conformes. E aproveita este retorno às passarelas para sair em busca de 1. um novo frescor para sua moda e 2. uma moda que faça sentido para seus clientes na vida real. Um prêt-à-porter, como ele define. No vocabulário do estilista isso não quer dizer trivial, porém — talvez, no máximo, apenas um pouco menos barroco. Ele parte dos códigos de alfaiataria para se mesclar à elegância esportiva do momento e oferecer uma série de bons separates para eles, elas e elus, todos em tons neutros e com foco especial nas texturas dos materiais. Quer uma calça de cintura alta ou talvez amplíssima? Tem. Uma saia longa matelassada? Também tem. Uma blusa de ombros poderosos e abaulados? Olhe ali adiante. A gana pode ser mais pra clássica ou um bocado futurista, mas segue sempre um pensamento híbrido que atende a uma boa (e interessante) realidade comercial.
Meninos Rei + Atelie Mão de Mãe
Mais do que dois desfiles, uma catarse política de presença e pertencimento. Foi assim a primeira entrada ao vivo do Projeto Sankofa no SPFW, que abriu a agenda da quinta-feira de desfiles com Meninos Rei e Ateliê Mão de Mãe, ambas iniciativas de Salvador. Foi bonito e potente ver as duas duplas ocupando simbolicamente um espaço que a representatividade preta conquistou no evento na base da briga — e mostrando como a semana de moda brasileira pode se estabelecer (como já deveria ser há tempos), mais diversa e conectada com a realidade do país fora da bolha em que passou tanto tempo imersa. Donos de uma moda urbana calcada em estamparias de tecidos africanos, os irmãos da Meninos Rei mostraram rapidamente que podem transitar entre corpos diversos, todos os gêneros e realidades distintas, da camisaria clássica ao sexy com movimento. O colorido das matérias-primas ajuda a encher os olhos, é claro. Mas a vontade de fazer é o que grita mais alto aqui, ao lado de uma ebulição que não pretende abrir mão de um holofote já tomado para si. Num tom mais calmo (mas não menos possante), o Ateliê Mão de Mãe botou pra rodar as possibilidades de uma moda feita à mão, slow de verdade, praticamente toda baseada em linhas e pontos de crochê. Nessa chegada, aproveitam para mostrar um portfólio que vai da moda praia a uma vontade cruise para o cotidiano, com tons navy e terrosos, mais momentos de cenários sofisticados. A origem é hippie (e a mãe que dá nome à marca bate no peito para falar disso com orgulho), mas o produto final não deve nada a ninguém. E ganha fôlego ainda maior nos dias de hoje, de retorno às origens, em que esse tipo de trabalho manual deve ser cada vez mais valorizado.
Walério Araújo
Walério Araújo, um dos maiores nomes da noite e da moda paulistana faz sua estreia nas passarelas do SPFW. Com uma coleção inspirada na coluna dos anos 1990 de Erika Palomino, "Noite Ilustrada", ele trouxe para a passarela sua especialidade: brilho, glamour e uma irreverência particularmente suas. Alfaitarias máxi descontruídas rebordadadas com maxicristais, silhuetas do corpo desenhadas em pedraria, uma chemise com gola que se repete nos bolsos, um vestido inteiro bordado com imensas pérolas pareado com botas também cravejadas. Personalidades da noite e amigos de Walério estão ali: Johnny Luxo, Geanine Marques, Halessia, Bianca Della Fancy entre outros fazem parte do casting diverso e plural do desfile. "Volta por cima" estampa as costas de uma das jaquetas, uma alusão à resiliência do próprio estilista e do convidado especial de encerramento do desfile: Luciano Zsafir, que adentrou a passarela de camisa aberta mostrando com orgulho sua bolsa de colostomia. Um clima de emoção toma conta do desfile na entrada de Walério, a plateia se levanta e o recebe com aplausos calorosos. Saudades estava dessa emoção que só um desfile ao vivo pode te proporcionar.
O Divino é o tema da coleção de Ronaldo Silvestre, uma apresentação com cores vibrantes e algodão com tingimento natural. Já na Rocio Canvas, Dona Rocio mãe do estilista Diego e inspiração por trás do nome da marca é a estrela da apresentação-poema, narrando sobre o passado e o repertório de símbolos da marca. A Von Trapp de Marcelo Von Trapp, explora a alegoria do materno em sua coleção de estréia no SPFW: Matronae. Volumes, plissados em cores como vermelho e azul – constantes do trabalho do estilista – trazem a narrativa para seu vídeo lúdico.
Já a Bold Strap brinca com o universo queer e tenta borrar as barreiras do binário. O que é feminino? O que é masculino? A coleção ainda conta com uma collab com leather designer Victor Puglielli. O vídeo brinca com o universo do absurdismo das festas de Maria Antonieta, só que make it BDSM. A ALG faz o que faz de melhor e traz o universo urbano do streetwear, mas nessa estação revisitado em peças transparentes em organza, casacos oversized são pareados com bermudas e saias. Cores fortes como rosa e amarelo neon mixados com camuflados descontruídos. Todos nós queremos sair pro mundo novamente, e isso também é vontade na Ellus. A coleção Outdoor, que comemora os 50 anos da marca traz um mix de peças, em especial outerwear para esse momento que se aproxima.