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Marcelo Tas - A comunicação de eras em sua "Supernormalidade"

Tido como um dos maiores e mais sensatos comunicadores em atividade no Brasil, Marcelo Tas comanda o “Provoca”, da TV Cultura e vive uma vida ativamente inspiradora além das telas

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Foto: Rômulo Fialdi

O nome com pinta de imortal da Academia Brasileira de Letras – Marcelo Tristão Athayde de Souza – pode até enganar os mais desavisados. Porém, é só trocar os sobrenomes portentosos pelo singelo “Tas”, para que a imagem do comunicador venha à mente. Nascido no interior paulista, na cidade de Ituverava, ele veio para a capital quando ingressou na Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo. Formado em Engenharia Civil, Marcelo confessa que sempre flertou com o jornalismo. “No final dos anos 1970, o pessoal do jornalzinho da Poli era a nata pop do lugar, quase como se fossem astros do quilate de Mick Jagger. Nunca achei que colaboraria para o periódico – que tinha um tom anarquista, até que, no segundo ano, emplaquei um artigo. Foi então que virei assíduo e aprendi a editar um jornal. Eu adorava aquilo. Sei que a maioria dos alunos era careta, mas também se convivia com gente interessante – do presidente do Grêmio, que era da extrema esquerda, até músicos, poetas e designers.”

Depois de diplomado, e com as antenas focadas no futuro, ele resolveu cursar Rádio e TV. “A engenharia abriu a minha cabeça para inúmeras possibilidades que se alinhavam à comunicação, como a criação da produtora ‘Olhar Eletrônico’, aberta ao lado de Fernando Meirelles, Marcelo Machado, Tonico Mello, Renato Barbieri, Dário Vizeu e Paulo Morelli.” Com a ideia de fazer roteiros de qualidade, com viés sarcástico e linguagem descomplicada – o Brasil vivia uma ditadura militar –, surgiu, em 1983, o repórter Ernesto Varela. Interpretado por um Tas cabeludo, desenvolto e rápido nas sacadas com os seus interlocutores, não demorou para que o personagem entrasse no rol dos sucessos nacionais. Depois disso, Marcelo foi para o casting do programa “Aventura”, exibido pela extinta rede Manchete. “Era uma pauta ousada. Fazíamos 30 minutos de humor dentro de um jornal chique, que contava com nomes como Fernando Barbosa Lima, Roberto d’Ávila e Arnaldo Jabor. Mas rolou um mal-entendido e o [Adolpho] Bloch nos tirou do ar ainda na temporada de estreia. Tudo por causa de uma propaganda da Apple, sobre o lançamento do Macintosh ‘1984’. O anúncio, dirigido por Ridley Scott, mostrava a plateia hipnotizada diante de uma gravação. Então, uma mulher aparecia correndo e arremessava um martelo sobre a tela. Nós fizemos uma paródia usando esse contexto para debater a pena de morte – e lá fui eu de Varela questionar o Erasmo Dias [então deputado estadual pelo PSD e grande defensor do tema]. Infelizmente, a brincadeira não pegou bem para o seu Adolpho e ele nos tirou precocemente do canal”, diz.

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Foto: Rômulo Fialdi

Porém, o que Marcelo não esperava é que a Globo tinha planos para ele. E diante da oportunidade, a emissora tratou de convidá-lo para capitanear o Vídeo Show. “Antes de assinar o contrato, avisei a eles que havia me candidatado a uma bolsa de Cinema da FulBright, nos Estados Unidos. Ou seja, deixei claro que se fosse chamado, a especialização seria a minha prioridade. E acabou que consegui a vaga e tive que deixar o programa antes do esperado.”

Em solo ianque, Tas manteve algumas colaborações esporádicas de responsa – a exemplo da entrevista antológica com a diva Tina Turner. Ao retornar ao Brasil, desempregado e sem saber ao certo o que faria, topou entrar no elenco de “Rá-Tim-Bum”, onde deu vida ao Professor Tibúrcio, e também passou a atuar atrás das câmeras na condição de diretor. “Essa experiência levou-me para a educação mais formal, pois o ‘Rá-Tim-Bum’ já era pensado com finalidades didáticas. Na sequência, fiz o ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, como ‘Telekid’ – e isso colocou-me em contato com professores e pedagogos. Foi a partir daí que a Fundação Roberto Marinho me procurou para coordenar o Telecurso, que é, sem dúvida, o maior projeto que já fiz na televisão.”

A jornada como comunicador alcançou a MTV na década de 1990 – point obrigatório para a turma descolada da época. De lá, Tas apresentou o “Vitrine”, na TV Cultura, até virar âncora do “CQC”, na TV Bandeirantes. O humorístico adaptado do formato argentino “Caiga Quien Caiga” fez história ao tratar a política brasileira como o tal do “pão e circo”. As reportagens feitas nos corredores da Câmara e do Senado renderam alguns contratempos judiciais, como aqueles aferidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. “Nós nunca o colocamos como um ‘lacrador’. Na verdade, sempre critiquei o [Jair] Bolsonaro de maneira tão aguda, que ele me processou duas vezes. O ‘CQC’ mostrou algo que a mídia ainda não havia revelado ao público, que é a existência do baixo clero. E desde o Ernesto Varela, tenho interesse em compreender o modus operandi do baixo clero. No ‘CQC’, nós fomos lá, entrevistamos esses caras e mostramos que eles são uns idiotas. Por conta da nossa abordagem, inclusive, acabamos bloqueados por seis meses de entrar no Congresso Nacional por ordem do Eduardo Cunha. Imagina que àquela altura, o Cunha não passava de um parlamentar do Rio de Janeiro, completamente desconhecido fora do seu reduto eleitoral. E foi ele que conduziu o impeachment da Dilma Rousseff.”

Foto: Rômulo Fialdi

“MARCELO NÃO FAZ CENA. ELE é EXATAMENTE a PESSOA QUE NOS ACOSTUMAMOS a VER PELA TEVÊ. SEM EXAGEROS, DIVERTIDO na MEDIDA EXATA, DONO de UM SENSO de ANÁLISE APURADO e BASTANTE AUTÊNTICO em SUA SEGUNDA PELE COM ESTAMPARIA de TIGRE”

Com quarenta anos de trajetória, Marcelo Tas estrelou outras iniciativas, caso de um talk show no Cartoon Network, o “Papo de Segunda”, do GNT, e o #TasNoSportTV. Pai de três filhos, Luc (fruto do relacionamento com a figurinista Cláudia Kopke), Clarice e Miguel, do casamento com Bel Kowarick, atriz, diretora de teatro e produtora, Marcelo avisa que tem hábitos caseiros e relaxa com as mãos na terra. No sítio localizado em sua terra natal, a 400 quilômetros de São Paulo, ele aproveita para cultivar a horta e meditar. De volta à cáustica Pauliceia, em seu bunker convertido em múltiplos espaços midiáticos, assinado pelo arquiteto André Wainer – com direito a biblioteca-escritório-sala-fitness, ele se reconecta ao frenesi cotidiano.

A casa, configurada nos moldes das outras da vizinhança na parte externa, tem interior com layout aberto, pontilhão de aço que interliga o estúdio ao “laboratório” e um pequeno jardim entre as duas construções do terreno. Antes da escadaria que acessa o piso superior, há uma sauna diminuta com vista para a área verde. Na sala reservada ao trabalho, alguns móveis coloniais contrastam com a contemporaneidade do entorno. Nas prateleiras figuram romances, livros de cinema e de filosofia, objetos afetivos, fotografias e esculturas.

Marcelo não faz cena. Ele é exatamente a pessoa que nos acostumamos a ver pela tevê. Sem exageros, divertido na medida exata, dono de um senso de análise apurado – detalhe que o levou a ser comentarista do Jornal da Cultura e protagonista do “Provoca” –, e bastante autêntico em sua segunda pele com estamparia de tigre. Não impõe condições restritivas à entrevista, fala sem pudores. Para ele, a liberdade de expressão é soberana (leia-se: isso nada tem a ver com fake news).

Foto: Rômulo Fialdi

“O ‘CQC’ MOSTROU ALGO que a MÍDIA NÃO HAVIA REVELADO ao PÚBLICO, que é a EXISTÊNCIA do BAIXO CLERO. E DESDE o ERNESTO VARELLA, TENHO INTERESSE em COMPREENDER o MODUS OPERANDO do BAIXO CLERO. No ‘CQC’, NÓS FOMOS LÁ, ENTREVISTAMOS ESSES CARAS e MOSTRAMOS que ELES SÃO uns IDIOTAS”

No quartinho, debruçado próximo à copa das árvores, está o seu “Lab”. Mas fuja da perspectiva de um ambiente branco e quadradinho – o recinto é a tradução literal do caos imaginativo que flui loucamente na mente do anfitrião. “É supernormal”, endossa. Por sinal, essa normalidade em excesso rendeu o nome da empresa especializada na elaboração de conteúdos multiplataformas, aberta em sociedade com Bel. Ainda nos confins do laboratório, as HQ’s dividem as atenções com diplomas – incluindo o de Engenheiro Civil –, fotos e documentos emblemáticos. A parede de lousa tem desenho alusivo ao cineasta francês Georges Méliès e também expõe narrativas que estão na fila para ganhar forma. É em meio a esse arcabouço de fantasias e de memórias, que Tas encontra a inspiração necessária para se reinventar diariamente.

Foto: Rômulo Fialdi

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