Lino Villaventura em entrevista exclusiva para a L'Officiel Brasil
Moda com emoção! Lino Villaventura comemora 45 anos de carreira e da marca que leva seu nome. Inconfundíveis, de forte DNA, sua roupa e seus desfiles conversam com o cinema, a literatura, a arte e a fotografia.
O universo de moda do estilista Lino Villaventura é performático, teatral mesmo. Na passarela, os movimentos das modelos junto com a maquiagem, o cabelo e a trilha sonora criam imagens únicas que se repetem desde seu primeiro desfile. “Tenho a sorte de trabalhar com meninas que são incríveis, elas interpretam meu trabalho e gostam disso”, conta ele à L’OFFICIEL. Completando 45 anos de carreira, diz que sempre buscou criar um trabalho autoral, ainda que assustasse ou despertasse curiosidade no público, mas sem perder o foco na roupa que pudesse ser vestida. Essa, sim, sua grande preocupação.
Apaixonado por tecidos, revela o prazer que tem em bordar, tingir, unir e montar pequenos pedaços em moulage. E, também, dar a materiais simples, como palha de buriti ou escamas de peixe desidratadas, aparência sofisticada. “Acho que quando você não tem medo de errar é quando você consegue resultados originais”, analisa. Tudo isso para dar forma a peças esculturais – mesmo que o caimento seja fluido. Pouco afeito a temas, ele explica que o cinema e a literatura, de Fellini a James Joyce, sempre foram inspiração para o seu processo criativo, assim como exposições e fotografia. São caminhos que o levaram, ainda, para o desenvolvimento de figurinos para filmes, peças teatrais e balés. Parte de sua história, hoje, está no MAB (Museu de Arte Brasileira) da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo, e no Instituto Zuzu Angel, no Rio de Janeiro. A seguir, Lino faz uma retrospectiva de sua trajetória, fala de suas raízes, de moda e de emoção.
Você está comemorando 45 anos da marca. Que balanço faz dessa trajetória?
É incrível. Não consigo me situar que tenho 45 anos de profissão e 71 anos de vida. Acho que é porque não me sinto envelhecer. Mas quando você relembra coisas que fez e conheceu, é possível perceber que tem um histórico muito grande. Às vezes, quando vejo imagens de desfiles ou de figurinos que fiz, observo que realmente tem muito tempo. Tirando qualquer vaidade ou falsa modéstia, acho que meu trabalho é pioneiro no Brasil desde o início. Eu comecei em 1978 e ninguém fazia nada autoral, mesmo quem pretendia fazer algo autoral naquela época era muito parecido com o que estava sendo feito. Fiz um trabalho muito diferenciado que podia despertar susto ou curiosidade porque era original e por isso as pessoas acabavam respeitando. Também sempre me preocupei com a roupa, que precisava vestir, ser usada. E desfiles foram mais de 100. Eu me lembro que em 1985 fiz um desfile no Rio, junto com grandes marcas e estilistas cariocas, numa premiação chamada “O cinema na moda”, ou algo assim. Do camarim, comecei a ouvir muito barulho lá fora e as meninas [modelos] voltando emocionadas, chorando. Quando fui ver estava todo mundo aplaudindo de pé, vibrando, gritando meu nome e eu tinha pouco tempo de carreira. O material desse desfile está no MAB, o museu da Faap.
A marca tem um DNA forte. Quando você chegou à imagem de moda que conhecemos hoje?
Já na primeira peça, que foi um presente que fiz para Inez [um colete que ele bordou para dar de presente para a ex-mulher quando ainda eram namorados], havia esse fio condutor do que faço. Quando decidi que ia trabalhar com isso [moda] e não com arquitetura e engenharia civil [ele cursou as duas áreas], a parte estrutural estava lá. Hoje em dia tenho o Regis Vieira, meu colaborador, que faz comigo uma parceria muito forte na criação – ele me ajuda e me incentiva, me provoca também, o que é bom. Tenho sorte de ter uma pessoa assim do meu lado e a Inez, que faz toda a parte administrativa. São pessoas muito importantes.
Qual seu método de criação de uma peça?
Vou na intuição, raramente desenho. Coloco o tecido na mesa, corto em um monte de pedaços, mando bordar e fazer acabamento e depois monto. Acho divertido ver o resultado e me surpreendo muito. Também brinco, por exemplo, chamando a roupa de “Uau” porque é o que vem quando se olha para ela (risos). Não é fácil trabalhar com uma roupa tão específica, tão cheia de personalidade. É dispendioso porque não é uma roupa de grande produção, mas é uma roupa elaborada mesmo que seja uma t-shirt.
Você se sente realizado profissionalmente?
Se não fosse esse trabalho eu não teria tantas oportunidades de viajar pelo mundo, fazer desfiles em tantos lugares. Passei sete anos fazendo showroom em Paris duas vezes por ano. Quando fiz desfile no Japão, que saiu na primeira página do jornal em Tóquio, em 1989, ninguém exportava moda brasileira. A satisfação é enorme. Agora, “se sente realizado?” Não é o caso, né? Porque se sentir realizado é sentir que já fez tudo que tinha que fazer. Eu não acho isso.
Quando, nesses 45 anos, você começou a fazer nervuras e plissados e a juntar tudo isso numa mesma peça?
Eu fazia plissado nos anos 1980, mas comecei a achar que o plissado dava muito problema e comecei a brincar com nervuras, que são parecidas com plissados. Isso foi no fim dos anos 1980, início dos 90. Depois comecei a trabalhar com tecidos amassados e a fazer pregas desordenadas, que uso até hoje, e cada vez mais fui me sentindo mais seguro de mexer com tecido. Eu tinjo, bordo, faço vários processos sobre o tecido, como dublagens incríveis e sobreposição de bordados. Acho que quando você não tem medo de errar é quando você consegue resultados originais. Eu não tenho medo de errar, sempre dou um jeito. Quando vejo que não está indo como quero dou uma mudada e pronto.
Você é apaixonado por tecidos?
Muito. Eu brinco com tecido, não me importa qual seja. Desde a primeira peça que fiz na minha vida, [gosto] de transformar materiais não tão usáveis e luxuosos em algo sofisticado. Seja palha de buriti ou escama de peixe desidratada. Isso vem comigo desde muito antes de existir a preocupação com sustentabilidade ou reaproveitamento.
Isso tem a ver com a sua origem? Você é do Pará e seu trabalho tem muito a ver com o Ceará.
Acredito que sim. Sempre digo que tenho uma sorte enorme. Minha cidade, Belém, principalmente quando eu era garoto, me provocava muitos delírios porque tinha uma mistura de palacetes, de arquitetura francesa e a cidade era toda de paralelepípedos ingleses. Na minha cabeça aquilo era uma fantasia incrível. E ao mesmo tempo tem todo um lado indígena que é muito forte e na época não era tanto, mas a gente sentia isso na comida, no artesanato. Hoje em dia as pessoas valorizam muito mais, mas eu sempre gostei. Quando fui morar no Nordeste, no Ceará, aquilo ali complementou. É bem diferente o Norte do Nordeste: as festas populares, os materiais de pesquisa que recebo das pessoas, a arte popular nordestina que acho incrível. Quando comecei a vir para São Paulo em 1984 para fazer Fenit [Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit) criada em 1958 pelo empresário Caio de Alcântara Machado] veio uma coisa urbana que acrescenta muito na minha imaginação. Hoje, olho o trabalho de textura e acho que é muito amazônico e que está relacionado com a brasilidade.
Foi o Ceará que lhe deu a ênfase no fazer artesanal?
O trabalho de moda nasceu lá, por uma situação. Nunca pensei em trabalhar com moda, apesar de sempre gostar de roupa. Quando morava em Belém, tinha um grupo de amigos e a gente brincava de fazer roupa para sair à noite, [a gente] ia nas costureiras, mandava fazer, bordar. Mas eu queria ser arquiteto. Fui para Fortaleza acompanhando meus pais – depois de cinco anos meu pai quis ir para o Rio e se aposentar, eu disse que não iria, já estava com a Inez e tinha vários amigos. Meu pai ficou bravo e disse que se eu ficasse teria que me virar. Eu então pedi para ele pagar a faculdade e o aluguel e que eu me viraria com o restante. Foi penoso, mas fiquei muito feliz porque estava meio independente. Eu tinha dado um presente para Inez, o colete que eu e minha irmã bordamos, as pessoas gostaram e começaram a encomendar. Eu pensei que aquilo era uma brincadeira, achei bacana porque estava ganhando um dinheiro. Mas as coisas começaram a ficar mais fortes. Alguém encomendou uma saia, apareceu uma noiva e eu me meti a fazer. Até que chegou uma pessoa que encomendou uma calça de seda pura para um casamento. Aceitei sem saber fazer, mas fiz a calça e já tinha uma costureira que me ajudou. A pessoa achou [a calça] maravilhosa e pensei comigo “nasci para esse negócio”. Nunca fiz curso.
Tudo isso funcionou como incentivo?
Essas coisas iam me incentivando e comecei a pensar que [a moda] poderia ser a minha profissão. A Inez sempre me incentivou, fomos atrás de máquinas e abrimos um negócio. Quando nos casamos eu fiz o vestido de noiva dela. Eu costurei, bordei, fiz o acabamento. Fiz tudo na casa da mãe dela, na máquina de costura da mãe dela, para o pai dela ficar ainda mais horrorizado (risos). E assim outras coisas vieram e sempre foram grandes desafios, como fazer cenografia para uma exposição de paleontologia na Faap, do sítio paleontológico da Serra do Araripe, que pega Ceará, Pernambuco e uma parte do Piauí. Fiquei muito feliz de ter conseguido fazer de uma exposição científica uma coisa lúdica, tinha projeções incríveis e arte popular nordestina. Ou fazer figurino para dança, que é um desafio enorme porque a roupa tem que durar e aguentar os movimentos dos bailarinos.
Quando você começou a pedir para suas modelos serem performáticas na passarela?
Desde o meu começo, sempre gostei. Na época do Rio elas já faziam o que a Silvia Pfeifer fez neste meu desfile recente [último SPFW] com as performances de mãos. Elas me surpreendem, deixo [as modelos] muito à vontade, não faço ensaio.
A roupa escultural mais a performance de passarela levaram você para o palco?
Com certeza. Primeiro fiz figurino de cinema, muito complicado porque era Bocage: O triunfo do amor [1997], do Djalma Limonge Batista, que faleceu há pouco tempo [em fevereiro deste ano], e eram 800 figurinos. Sempre tive uma relação muito bacana com o teatro e com a dança. Fazer figurino é prazeroso, é outra história.
E como foi sua aproximação com o teatro?
Fiz Doroteia, de Nelson Rodrigues, que eu adoro o figurino e, também, Viúva porém honesta. Fiz Nine, o musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, e com Joãosinho Trinta fiz um figurino incrível para a ópera O Guarani. Fiz [figurino do] balé Baile na roça, no centenário de [nascimento de] Portinari, que tinha cinco coreografias. É um dos trabalhos de que mais gosto.
Já são 45 anos também de moda brasileira. Como você olha para essa trajetória em relação à nossa indústria?
Trabalhar com moda no Brasil não é fácil por falta de apoio. A moda brasileira é vista como supérflua, enquanto nos grandes centros do mundo tem apoio cultural. Aqui não se sabe bem sua importância cultural, o que é realmente moda. Moda envolve comportamento, envolve as questões social e econômica, o registro de determinada época. Mas acho que é uma coisa maravilhosa ter gente tão dedicada à moda no Brasil. Tem que ser corajoso, trabalhar muito porque não é uma brincadeira. Fazer moda não é para aparecer, ter sucesso. É para elaborar um trabalho respeitável. Acho que o brasileiro tem tudo para fazer uma moda original, só precisa ser encorajado. E uma coisa que acho importante, que faça um trabalho que perdure. As próprias escolas de moda precisam incentivar não somente a técnica, mas a originalidade, a acreditar no que se faz. Principalmente hoje em dia, com o excesso de informação que se tem. Não sei como eu seria garoto atualmente com esse cenário e fazer o que eu faço ou o que fiz. Sabe, eu não comprava revista de moda, é até meio pretensioso dizer, para evitar ser influenciado ou me sentir inibido. Preferia o cinema, que foi a minha aula de moda. Também sempre adorei ver exposições.
Quais são seus diretores preferidos do cinema?
Tem vários. [Federico] Fellini me influenciou muito, [Pier Paolo] Pasolini também em uma época. [Jean-Luc] Godard, [Michelangelo] Antonioni, todos os nomes da Nouvelle Vague e do cinema italiano; Glauber Rocha, [Ingmar] Bergman.
De que maneira esses nomes impactaram no seu trabalho?
O cinema dos anos 1920 e 30, principalmente, é a cara do meu trabalho. Essa coisa performática é influência do cinema. As meninas fazerem caras fortes – de raiva, de louca – é cinematográfico. Minha cabeça é cinematográfica. Tudo que faço em desfile é muito cenotécnico. Tinha uma época em que eu fazia cenários com performances muito mais fortes. Hoje em dia não mais, agora o foco está mais na roupa.
O que mais o inspira?
A literatura. Eu li James Joyce, que quase ninguém passava da terceira página. Eu tinha a vaidade de ser uma pessoa intelectualizada – nunca fui, sou bem informado, curioso. Mas quando era garoto adorava ler para conversar com meus amigos. Eu tinha um grupo de amigos que fazia isso. Mas gosto também da simplicidade porque às vezes de uma coisa banal você tira a ideia de uma textura, detalhe ou forma diferente. Quando o Regis foi me substituir em um showroom em Tóquio, me trouxe um livro de Hiroshi Sugimoto, artista e fotógrafo japonês. Olhando o livro vi fotos que são telas brancas de cinema. Aquilo me deixou intrigado porque me remeteu [à fase] quando eu era garoto e ia ao cinema – eu gostava de cinema meio vazio. Era incrível a sensação de estar no cinema sozinho com a tela branca e ficar imaginando o que iria acontecer. Sempre saí do cinema me achando um personagem. Era um pouco fugir da minha realidade, eu era muito tímido e sozinho. Quando vi o livro disse: “vou fazer uma coleção toda branca, para as pessoas imaginarem o que poderia ser”. Na época [2008] eu escrevia release e nele agradeci a Hiroshi Sugimoto pelo lampejo de ideia que o livro me deu. Agora, de onde vem inspiração? Não sei... acho isso abstrato, vem de coisas que você olha e desperta sua atenção.
Quando você está elaborando uma coleção traz uma história junto?
Não, às vezes formo a história depois. Se eu formar uma história, perco a liberdade de fazer o que eu quiser. Não gosto de tema.
Suas coleções são intuitivas?
Tudo na minha vida é intuição. A primeira calça que fiz foi na intuição, se existe predestinação, vim para fazer roupa, tenho muita facilidade.
Quanto tempo investe desenvolvendo uma coleção?
Cerca de quatro meses porque começa aos poucos, fazendo os trabalhos sobre os tecidos e depois vou montando. Às vezes, de uma peça sai a coleção toda. É porque as pessoas que trabalham comigo já têm uma prática boa, pegam rapidamente. Tenho oito costureiras, seis acabadeiras, cortador, passadeira, supervisora, overloquista. Fazer nervura é uma coisa absurda, uma por uma, são milimétricas e os botões são feitos à mão. Aliás, meu pai me colocava para dormir de pijama japonês e tinha esses botões feitos à mão. Minha casa também era cheia de estátuas chinesas, parecidas com as roupas que faço. Ficou na imaginação. Inspiração é a vida da gente, é vivência, experiências, sensações, emoções, filme que você chora.
Por que doou parte do seu acervo para o Instituto Zuzu Angel e para o MAB?
Tomei essa decisão no intervalo da pandemia, em 2021. Estava complicado manter o acervo com mais de 500 peças e já tinha recebido pedidos da curadoria do MAB Faap – doei uma peça no passado. Vi que precisava ter mais cuidado com a con- servação das roupas, que são muito preciosas. Várias precisavam de restauração e a equipe do MAB é muito cuidadosa com a preservação de vestuário. Resolvi então doar roupas, sapatos, cabeças [head pieces] e até peças sob medida que haviam sido me dados de presente de volta por clientes para o acervo. E para o Zuzu Angel, sou amigo da Hildegarde [Angel, filha da estilista Zuzu Angel, fundou o Instituto em 1993], e ela também já havia me solicitado. Ela já tinha roupa minha que pertenceu a Carmen Mayrink Veiga. Doei uma parte importante dos anos 1980, de desfiles que fiz no Rio de Janeiro, além de outras coleções. Acho que está tudo sendo muito bem cuidado. Mas ainda tenho muitas peças comigo.
O que é moda para você?
Moda é muito mais do que parece, são registros de comportamento, forma de você estudar sócio e economicamente uma época. Moda é cultura, está no cinema, no comportamento, na maneira de ser. Tudo isso se relaciona com a moda. Para mim nunca foi a roupa em si, a roupa apenas registra tudo isso. A maneira diferenciada de mostrar uma roupa é uma forma de catalisar os acontecimentos. Para mim a moda é um contexto muito mais amplo do que a gente imagina.
Tudo isso ainda o emociona?
Muito. Eu choro quando vejo um trabalho bacana meu, mesmo do passado, fico emocionado. Penso: “que bacana que consegui fazer uma imagem dessa”. Não sei o que as pessoas pensam, se valorizam ou não, mas fico orgulhoso de ver. Outro dia estava vendo a abertura de um desfile com a música da Nina Simone e era tão lindo. Sou pura emoção. Digo isso sem pudor. Eu me sinto privilegiado e feliz de ter conseguido inventar tanta coisa.
Créditos:
Fotos e tratamento de imagem: Igor Kalinouski
Modelos: Isabel Hickmann (Joy) e Marina dias (Joy)
Beleza: Ju Bonfim
Assistente de fotografia: Rodrigo Gonçalves
Produtora executiva: Anna Guirro