O amor nos tempos do coronavírus: nossa capa Taís Araújo fala sobre esse momento inédito
L’OFFICIEL Como está a sua rotina em tempos de isolamento social?
TAÍS ARAÚJO Está uma rotina pesada de trabalho. Moro em uma casa grande e todos os funcionários foram liberados. Estamos, eu e Lázaro, dando conta da casa toda e mais das crianças, que estão tendo aula online. Mas estamos sobrevivendo e agradecemos todo dia: acordamos com saúde e a gente entende que somos absolutamente privilegiados porque temos um teto, temos uma casa, temos onde ficar. Temos como nos abastecer de comida. Quando a gente olha para o Brasil inteiro e vê que a situação das pessoas é muito precária – muita gente em situação de vulnerabilidade –, a gente agradece, entende o nosso lugar de privilégio e procura saber o que pode fazer para melhorar a vida dos outros. É um exercício que temos feito, pensado e agido, dentro do possível, já que não dá para sair de casa.
L’OFFICIEL Como está a sua vida e da sua família?
TA A vida do meu núcleo familiar está bastante tranquilo. Estamos juntos nós quatro dentro de casa. E isso faz com que a gente tenha chance de fazer uma coisa inédita, porque sempre trabalhamos muito, eu e o Lázaro. Estamos direto com os nossos filhos, nos olhando, nos reconhecendo – porque os filhos vão crescendo e vão criando suas maneiras de lidar com as coisas... Tem sido uma experiência interessante e importante. Meus pais são separados, mas minha mãe é generosa e eu e minha irmã pedimos que papai ficasse na casa dela. Isso me deixa mais tranquila, porque os dois estão juntos. Isolamento total de um idoso me deixa muito preocupada. Assim, eles têm coisa para fazer juntos, como assistir a um filme – ou até brigar (risos). E isso me deixa com o coração mais calmo. Estamos assim: um dia de cada vez.
L’OFFICIEL Conte para a gente cinco coisas que aprendeu durante a quarentena.
TA Tanta coisa! Vamos começar pelas subjetivas. Aprendi o que de fato é o simples, de como viver na simplicidade é importante (o filho chama e ela interrompe o áudio). Tenho aprendido o quanto a gente não precisa de muita coisa para viver. E estou me certificando de o quanto o outro é importante e fundamental para a nossa sobrevivência, do quanto a sociedade funciona como um elo. Estamos todos ligados uns aos outros independente de posição, origem, credo ou ideologia política. Há uma ligação entre todos nós. Também aprendi a brincar de boneca – construí uma casa de vários cômodos com caixas de sapato para a minha filha, aprendi a ser um pouco professora, porque tenho feito trabalhos com eles... Aprendi ainda a fazer coisas da casa que nunca tinha feito por vários motivos – um deles é que trabalho desde 13 anos –, e aprendi que saúde é o que há de fundamental nessa vida, além de afeto e preocupação com o outro.
L’OFFICIEL Como imagina que o mundo vai se reorganizar depois da pandemia?
TA Eu acho que a gente vai mesmo se organizar com a simplicidade e entender que um está ligado ao outro. É um olhar otimista que eu tenho para o final disso tudo. Triste ter que perder tantas vidas para isso, mas acho que vamos nos tornar uma sociedade mais fraterna e igualitária.
L’OFFICIEL Muito se discute sobre a necessidade do isolamento social X a quebradeira da economia se todos pararem. Qual sua opinião a respeito?
TA A minha opinião é que as vidas têm que ser salvas. Isso é o principal. A economia quebrar é bastante sério também, mas os governos precisam ter um pensamento não só capitalista mas humanista e inteligente, de articulação, de como reorganizar essa sociedade e não permitir a quebradeira. Aí é plano de economia, não diz respeito a mim. Mas tenho certeza que existe uma saída e que envolve boa vontade de todas as partes. O objetivo humanitário é o foco.
L’OFFICIEL Como mantém a saúde física e mental em casa?
TA Fazendo trabalho dentro de casa (rs). Em algum momento, vou ter que me organizar, dentro das possibilidades das funções da casa e das crianças, para fazer alguma ginástica. Mas ainda não tive esse tempo. Não quero atropelar as coisas. Estou me dando esse tempo. É momento de parar, entender o que está acontecendo e ir no meu tempo.
L’OFFICIEL Quais os maiores desafios?
TA O maior é conseguir preservar vidas. E ele não é um desafio meu, mas de todo mundo. Entendo que muita gente está no front e não pode não ir trabalhar. Minha irmã é uma dessas – ela é médica. Temos que entender que quem pode parar tem que parar, vibrar positivamente. O Brasil ainda vai entender o que isso vai virar, a coisa ainda vai piorar. A gente vai ter que acalmar o coração e entender o que fazer, definitivamente. É um momento de angústia e apreensão mas também de novos pensamentos, conceitos e lideranças. Momento de transformação.