Moda

Tipo único: produção de bolsas ajuda em cura social

A Volta Atelier dedica-se a um processo de cura social por meio do handmade sustentável, entre Nova York e o Rio Grande do Sul
Bolsas
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Nas últimas temporadas, as passarelas da New York Fashion Week exibiram bolsas feitas em oficinas no Brasil por refugiadas haitianas que moram no Rio Grande do Sul. Uma descrição que, anos atrás, poderia significar a revelação de mais um esquema de trabalho escravo na moda hoje é sinônimo de uma produção humanizada e 100% focada na sustentabilidade.

Os acessórios são da Volta Atelier, iniciativa de Fernanda Daudt, consultora gaúcha radicada em Nova York. Com background de anos trabalhando embrenhada no setor calçadista da Região Sul, veio dela a ideia de somar fatores que estavam no ar para criar algo que fizesse sentido para um novo – e mais correto – consumo.

“Chegou um momento em que não tinha mais graça trabalhar com moda, mas, ao mesmo tempo, sempre quis ter uma marca. Então precisava ser algo que realmente fizesse sentido”, reflete ela. O amor pelas manualidades e o trabalho pregresso com artesãos, na Assintecal, aliaram-se a seu olhar sobre o desperdício da manufatura de itens de couro, e não só aqui. “Eu visitava diversas fábricas na China e sempre havia aquela montanha de resíduos nos fundos. Era muito impressionante.”

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Fotos: FELIPE FARIA

A constante quantidade de descartes da indústria começou a dar forma à Volta, em 2017. Na busca por um propósito, criou o projeto de fazer bolsas utilizando-se apenas dessas sobras de matérias-primas. A mão de obra foi resolvida com o fluxo de imigrantes do Haiti que têm entrado no Brasil na última década – parte deles chega até Caxias do Sul, onde Fernanda morava, atrás de empregos nos parques fabris locais.

“Entrei em contato com o Centro de Atendimento ao Migrante, uma ong que os ajuda a se estabelecer por aqui. As mulheres dificilmente teriam trabalhos regulares, seja por conta de filhos pequenos em casa, seja do machismo dentro da família. Selecionamos algumas delas, que receberam um treina- mento e se revelaram ótimas artesãs – e estão conosco até hoje.” De Nova York, Fernanda organiza o fluxo entre a caça aos couros e a produção, em que todas as peças são costuradas a mão pelas artesãs da Volta – com direito à assinatura de identificação nas etiquetas. O resultado são nove tipos de bolsas e mochilas, que são vendidos em quase 60 lojas pelos EUA e agora chegam com modelos exclusivos na plataforma brasileira 2Collab.

Apesar da feitura controlada, o sucesso da empreitada tem razão de ser: “As pessoas não acreditam que são todas costuradas a mão, de tão bem-feitas. E temos acesso a couros preciosos que são amostras dos curtumes e muitas vezes nem chegam à produção em larga escala”. Por isso, além de sustentáveis, as criações da Volta se tornam cobiçadas pela pegada one of a kind. Afinal, a escolha dos materiais segue apenas o bel-prazer do destino. “Eu não tenho como planejar coleções porque não sei a matéria-prima que a indústria oferecerá, nem a quantidade ou os tamanhos. Por isso, só trabalhamos com pronta-entrega. Às vezes até declinamos encomendas, pois as lojas querem uma determinada cor ou textura que não existe mais. Ao mesmo tempo, essa também é parte da graça da história.”

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Fotos: FELIPE FARIA

Em Nova York, a Volta faz parte da Flying Solo, loja/ showroom coletivo de marcas independentes que fica no SoHo e desfila nos dias da NYFW. De lá, Fernanda vai planejando a expansão lenta e coordenada da marca, sem perder a mão da circularidade e da certeza de fazer um trabalho social transparente. “Nossa ideia é treinar esse grupo e colocar essas mulheres para trabalhar também para outras marcas. Não temos um discurso paternalista, não estamos aqui para salvar ninguém. Pelo contrário, são elas que nos empoderam.”

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Fotos: FELIPE FARIA
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Fotos: FELIPE FARIA
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Fotos: FELIPE FARIA
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Fotos: FELIPE FARIA

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