Emanuelle Araújo: Contando histórias em formatos diferentes
Em mais um episódio na nossa série de entrevistas Parle L'Officiel, batemos um papo incrível cheio de histórias e amor à arte com Emanuelle Araújo
Emanuelle Araújo é o que chamamos em inglês de triple threat, que literalmente traduzido para o português significa ameaça tripla, mas nos termos de arte quer dizer que ela canta, dança e representa. E aqueles que já a viram no palco ou nas telas, podem dizer com segurança que ela faz isso tudo muito bem.
Diferente dos primeiros episódios do Parle L’Officiel, quando o mundo ainda estava relativamente parado, a conversa com Emanuelle Araújo parece acontecer no meio de um furacão. Ela estava em um ritmo frenético entre ensaios, espetáculos e gravações de filmes e séries que estão para serem lançados ainda este ano - e do meu lado, também lidava com o retorno de eventos presenciais e festivais de cinema. No entanto, os astros se alinharam e enfim, tive a oportunidade de conhecê-la por videoconferência.
Ao contrário da durona Velma Kelly, sua personagem na peça Chicago, Emanuelle é extremamente tranquila e leve. Forte? Corajosa? Não há a menor dúvida, mas faz isso com uma delicadeza que é só sua, ou talvez seja algo que vem no ar da Bahía. Mas é impossível não se encantar com o seu jeito de ver o mundo e por suas histórias. E considerando que ela estava em cartaz em um musical, toda formalidade foi perdida quando as duas começaram a geek out sobre teatro. Por isso, não deixe de assistir também ao vídeo deste bate-papo incrível cheio de histórias e amor à arte.
Há um motivo pelo qual o ponto central da conversa foi o seu recente trabalho em teatro musical. Até recentemente, Emanuelle explica que tinha duas carreiras separadas, a de cantora e a de atriz. E foi através deste formato que usa a música como parte da dramaturgia que a permitiu contar histórias usando toda a sua capacidade como performer. Afinal, para abordar a narrativa da peça era preciso cantar, dançar e atuar, “nada em Chicago é meramente alegórico. Tudo conta a história. Uma pirueta que eu dou, uma voltinha ao redor de uma cadeira, tem um motivo. Um dedinho que a gente levanta em uma cena, fala ‘opa, aqui quem manda são as mulheres’”, explica Emanuelle. Ao olhar para a obra como profissional, percebendo como cada coisa era costurada uma na outra, “Eu fui me apaixonando não só pela peça, pela música mas por esses criadores que estavam interessados em contar uma história” conta. Hoje tem os coreógrafos Bob Fosse, que fez a versão original de Chicago, e Ann Reinking, responsável pela produção atual da Broadway, na mais alta consideração.
Claro que interpretar a protagonista em uma peça tão conhecida, há expectativas altas, tanto do público quanto da produção, principalmente quando se trata de uma obra cujo o revival está em cartaz há quase 30 anos na Broadway. E mesmo que este peso histórico dê um pouco de nervosismo, afinal sua personagem abre o espetáculo em um dos números mais famosos da indústria, o All That Jazz, o fato do foco ser “em uma mulher que vai abrir o espetáculo olhara para o público e dizer ‘vou começar a contar uma história sobre a minha visão’”, explica a atriz, supera qualquer frio na barriga. “É a melhor entrada em cena”, confessa, “sobe no elevador, desce uma escada, olha para o público e fala: vem meu bem, que a gente vai brincar”.
Ela vê o espetáculo como um abre alas da potência feminina. A história contada por dois ícones femininos que também atraiu ela a encarar os desafios do projeto que exigiu um preparo fisico e mental muito forte. Longas horas de ensaios, cuidados para a voz e aulas de dança, principalmente o ballet clássico para aprimorar a técnica. No entanto, todo o trabalho valeu a pena.
Ao ouvir Emanuelle falando com tamanha profundidade sobre dramaturgia, corre-se o risco de esquecer que grande parte do público brasileiro a conheceu como cantora. Apesar de trabalhar com teatro desde os 14 anos, seu big break foi em 1999 quando ela foi selecionada para substituir Ivete Sangalo na Banda Eva. “Era uma loucura, um salto mortal de 20 andares”, lembra. Na época, não tinha muita consciência da responsabilidade comercial que havia aceitado, porém soube se cercar de pessoas de confiança que a permitiram apresentar a sua versão da banda, ou como ela diz, sua maluquice. “Eu levei minha galera, meus parceiros do teatro. Isso foi um acordo e isso me protegeu”, conta.
O curioso é que foi este o primeiro projeto que acabou criando uma dicotomia que vive até hoje: “até onde eu quero fazer e até onde eu quero pesquisar”, reflete. Para ela, “o artista precisa parar de vez em quando e assistir”, e naquela idade ainda estava em um momento onde isso era fundamental para a sua formação como artista. Ela tinha 20 anos, cursava a faculdade de teatro e estava “fazendo um monte de shows”. Liderar a Banda Eva, significaria abrir mão de seus projetos de pesquisa. “Ao mesmo tempo, era a minha grande chance de mostrar tudo o que eu estava estudando”, justifica. E o resto, é história.
Com o tempo, a versatilidade presente desde o início de sua carreira, permitiu que ela passasse dos palcos e topo dos trios elétricos para as telas da televisão e cinema, que assim como no teatro, abriu uma porta inesperada no gênero de musical com o filme O Meu Sangue Ferve por Você, que conta a história de amor entre Sidney Magal e Magali West. Emanuelle interpreta Graça, a mãe de Magali e antagonista da história. No entanto, seu papel dos sonhos de criança era o próprio Sidney “eu não era fã do Magal, eu queria ser ele”, conta. Atriz comenta que aos 5 anos de idade vestia as calças do irmão e passava o dia todo brincando de ser o cantor. “Hoje eu vejo que acho que o Magal com aquela coisa de Latin Lover, esse universo dele potente latino, passava uma aura de liberdade”, as roupas coloridas e seu jeito de dançar era tão livre que ela pensava “que quero essa liberdade. Eu quero ser assim”. Este objetivo foi conquistado, assim como o encontro com o ídolo, que é uma história melhor contada por ela mesma, então deixarei para a versão em vídeo - e já adianto, envolve uma apresentação sua como Sidney, no programa do Faustão.
É fascinante perceber em um pouco mais de uma hora conversando com Emanuelle como sua dedicação e paixão norteiam a sua vida e carreira. Seja na música, na dança ou na atuação, ela de fato se tornou uma grande contadora e consumidora de histórias. Talvez seja por isso que após décadas de carreira, ela siga com aquela curiosidade e sede de aprender que ao mesmo tempo que vem com seriedade também tem um lado divertido e brincalhão. Os musicais permitiram que ela ganhasse um novo formato para contar as suas histórias, mesclando todas as habilidades de palco que construiu até então. Acabou criando seu jeito próprio que vai do axé até o jazz. E isso é algo que só ela consegue fazer.
A impressão é que para Emanuelle o céu é o limite, e não há dúvidas que independentemente dos próximos desafios ela vai encará-los com o brilho no olhar de sempre trazendo sempre as suas “maluquices”. Nós, o público, seguiremos admirando e aplaudindo. Brava.