Racismo causa males, traumas e afeta a população preta
Os recentes casos de ações racistas contra o jogador de futebol Vini Junior levantam debates importantes sobre questões raciais, incluindo as consequências mentais e físicas dessas experiências.
O trauma racial é a terminologia que é utilizada na ciência de trauma para descrever a experiência de estresse no organismo vivida por alguém que sofre preconceito ou discriminação em função do grupo racial que essa pessoa faz parte. Sejam pessoas anônimas ou públicas, o racismo tende a afetá-las sem receio de câmeras ou da grande mídia, o caso mais recente foi com brasileiro Vinicius Junior, jogador do time espanhol Real Madrid.
No contexto do futebol, vários jogadores têm enfrentado episódios de racismo, dentro e fora dos gramados, o que pode ter um impacto profundo em sua saúde mental e bem-estar. Segundo Ediane Ribeiro, psicóloga especialista em traumas, o trauma racial pode ocorrer tanto em indivíduos que vivenciam diretamente a experiência de sofrer racismo e violência racial, quanto naqueles que pertencem ao mesmo grupo racial e testemunham uma violência racial ser praticada com outra pessoa. “É como se nesse momento a identificação fizesse com que o cérebro acionasse rapidamente o sistema de alerta ao reconhecer que poderia ser uma situação vivenciada por si mesmo. Portanto, o trauma racial decorre tanto da experiência direta de discriminação, preconceito e violência racial, como pode afetar também as pessoas do mesmo grupo ao presenciarem tais situações", ressalta a especialista.
Segundo Ediane, para pessoas pretas, o estresse racial se torna praticamente uma presença constante, uma vez que estamos constantemente expostos a notícias de pessoas próximas a nós, na imprensa, redes sociais, que sofrem violência racial. Esse contexto leva a uma consequência chamada hipervigilância, em que o sistema nervoso de uma pessoa preta está constantemente alerta para a possibilidade de ser alvo dessa violência. Como resultado, a pessoa vive em um estado de alerta contínuo, o que leva a respostas de estresse constantes, isso faz que a experiência do trauma racial não seja apenas emocional, mas também física.
“Algumas dessas consequências já foram amplamente catalogadas e estudadas, enquanto outras ainda estão por ser plenamente compreendidas. No entanto, é sabido que o excesso de estresse prolongado resulta no aumento da inflamação no organismo, o que pode desencadear uma série de doenças tanto físicas como mentais. Por exemplo, pesquisas recentes no campo do trauma racial têm levantado questionamentos sobre a prevalência de certos tipos de câncer e outros problemas de saúde na população preta que antes eram atribuídos exclusivamente a questões genéticas”, explica Ediane.
POR QUE O TRAUMA SOCIAL É UMA RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE?
Quando se fala de racismo e trauma racial a especialista explica que não há como diferenciá-los do contexto histórico, social e cultural, porque o racismo é fruto de uma violência perpetuada geração após geração e que não foi integrada a consciência coletiva. “Essa violência que começa no processo de escravidão veio ganhando diferentes colorações na sociedade moderna e continua a ser perpetuada. Essa consciência coletiva necessita de um envolvimento muito grande em todas as instâncias institucionais, governamentais e sociais para que a mudança realmente aconteça, desde as instâncias maiores até na educação nas escolas para chegar na criação dos filhos de uma educação realmente anti racista”.
Dessa forma, a falta de uma educação anti racista, é extremamente urgente e precisa ser vista como responsabilidade de toda sociedade. “O trauma racial e o racismo não é um problema dos pretos ou de quem sofreu o racismo, é um problema nosso como sociedade”, pontua a especialista.
COMO TRATAR O TRAUMA RACIAL?
Quando se trata de racismo, o peso da prevenção ou intervenção não deve recair apenas sobre os ombros daqueles que são racialmente marginalizados, porque a pessoa já carrega o estresse de viver a discriminação do preconceito de todas as suas consequências fisicas, mentais e emocionais, e ela não pode receber o peso de que resolver isso também é sua responsabilidade. Nesse processo, também é fundamental que a pessoa conte com o apoio de sua rede de convívio, como familiares e amigos, durante esse processo.
“Em um tratamento terapêutico individual, por exemplo, é muito importante que o terapeuta esteja atento a ajudar essa pessoa a se localizar dentro da experiência, sabendo que isso não é responsabilidade dela, e que ela não precisa alcançar sozinha em seu bem estar. Também é muito importante que esse profissional seja informado sobre trauma racial, para que ele não promova uma retraumatização dentro do setting terapêutico, invalidando aquela experiência racial e colocando nas costas de quem sofre o racismo a responsabilidade exclusiva da sua saúde mental” explica Ediane.
Ao abordar o trauma racial em figuras públicas, o peso de representar algo maior é frequentemente adicionado. Essas pessoas são vistas como símbolos de uma conquista coletiva. Portanto, é de extrema importância distinguir entre o indivíduo e o coletivo, especialmente ao cuidar da saúde mental de alguém que sofreu trauma racial. “É importante saber se é possível transformar esse espaço ou se ele é insalubre para aquela pessoa. Muitas vezes o tratamento vai passar identificação do quando eu posso ser coletivo e de quando eu preciso ser individual, porque antes que eu consiga representar qualquer coletividade, preciso também pensar em mim, então a priorização do bem-estar e da própria saúde mental é muito importante no tratamento”, explica a psicóloga.
De acordo com a especialista, o processo de tratamento também envolverá outras etapas, como a regulação emocional. Isso é especialmente importante para lidar com o sistema nervoso em estado de hipervigilância, que é constantemente ativado. Além disso, o tratamento também visa desenvolver recursos internos e externos que possam ajudar a pessoa a enfrentar futuras situações traumáticas relacionadas à discriminação e preconceito. “Essa é uma das grandes perversidade de um sistema opressivo e um dos grandes desafios de quem trabalha com os traumas raciais, porque o trauma não acabou, diferente de um trauma pontual vivido no passado e que nós podemos ajudar essa pessoa a retornar na fisiologia de segurança dando a informação para o cérebro de que o trauma passou e não está mais acontecendo no momento presente, o trauma racial é um trauma crônico e em curso, porque essa pessoa muito provavelmente vai viver novas experiências de descriminação e preconceito racial”.
EDIANE RIBEIRO - Psicóloga especialista em trauma.
Ediane Ribeiro é uma das principais propagadoras do cuidado informado sobre trauma (trauma-informed care), além de ser uma forte ativista das causas raciais. Seu trabalho não tem como objetivo apenas identificar os traumas que a pessoa carrega, mas sim fazer com que seu paciente entenda e saiba lidar com esses traumas através da psicologia. É Pós-graduanda em neurociências e comportamento e é especialista em traumas.