Alber Elbaz (já) está fazendo falta
Para Alber Elbaz, moda deveria ser mais sobre vida do que lifestyle, porque deveria ser bonita e funcionar para todos os corpos, para todas as mulheres. E ele colocou tudo isso em prática, lindamente, na coleção de estreia da AZ Factory, sua marca própria em parceria com o Grupo Richemont, no início deste ano, com um formato disruptivo de comunicação como, aliás, ele sempre gostou de arriscar. Em plena semana de alta-costura, ele comandou um fashion show em formato de programa televiso de variedades com direito a mensagens de colegas como Marc Jacobs e Pierpaolo Piccioli, da Valentino.
Empatia é uma palavra que cabe bem aqui – qualidade rara na moda. Talentoso, muito! Não à toa, foi escolhido pelo exigente Yves Saint Laurent como sucessor na direção criativa na linha Rive Gauche, em 1998, até ser demitido quando o grupo Gucci, comprou a etiqueta e contratou o norte-americano Tom Ford para o seu lugar. Depois, foram 14 anos na Lanvin, com coleções, desfiles e campanhas memoráveis, como o divertido fashion film, com Karen Elson e a brasileira Raquel Zimmermann dançando, impecáveis, ao som de I Know You Want Me (Calle Ocho), do artista Pitbull. Ah!.... Elbaz sempre arrumava um jeito de fazer uma pontinha nos filmes, mesmo preferindo o backstage.
Nos últimos cinco anos, Elbaz assinou parcerias, ministrou masterclasses... “Recebi ofertas de emprego de diversas casas. Mas eu queria criar, não recriar dentro de códigos definidos”, explicou no lançamento de sua marca. Apesar de ter ocupado cargos de diretor criativo, achava meio estranho o título porque, na sua opinião, dirigir e criar são ações que não combinam muito, com a primeira restringindo a segunda. Por isso, preferia ser chamado de dressmaker. Liberdade, esperança, propósito e feelings estavam sempre no seu radar. “Mais amor e menos likes”, resumiu, ressaltando sua paixão por pessoas e a profunda admiração pelos artesãos da moda, onde o criador é uma espécie de maestro conduzindo uma orquestra.
Alber Elbaz morreu cedo, aos 59 anos, no American Hospital em Paris, após três semanas lutando contra a Covid-19. “Alber tinha uma reputação ricamente merecida como uma das figuras mais brilhantes e amadas da indústria. (...) Seu jeito inclusivo de trabalhar e sua paixão tanto pela tecnologia quanto pelo savoir-faire tradicional faziam dele um personagem fundamental para a renovação da moda”, disse o fundador e presidente da Compagnie Financière Richemont, Johann Rupert, em comunicado oficial.
De A a Z
A chegada da AZ Factory, aliás, foi disruptiva. Fez parte do line-up couture. Agrega técnicas artesanais mas tem roupas prontas para ser consumidas, como no prêt-à-porter. Batizada com a primeira e a última letras do nome do estilista, a nova maison é definida como uma startup joint venture com o grupo Richemont e descrita como uma moda inteligente, com storytelling divertido e democrática. Disposta a vestir todos os corpos e idades, traz juntas a tecnologia e a sustentabilidade. Em fevereiro, L’Officiel listou de A a Z, os valores que tornaram empolgante o retorno de Alber Elbaz à moda.
Amor: para Alber Elbaz, existem muitos “likes” no mundo. “Precisamos de mais amor. Em vez de transformar as mulheres, quero fazer com que se sintam amadas.”
Beleza: o conceito de roupa bela e feminina conecta-se com o conforto que a tecnologia viabiliza.
Couture: “O que a alta-costura representa é experimentação e individualidade. Para mim, essa é minha nova couture.”
Distanciamento: “Por mais que eu adore moda, precisei de um tempo longe da indústria, para pensar, sonhar e me apaixonar por ela de novo.”
Educativo: é como Alber Elbaz descreve o evento digital e divertido apresentado na temporada de alta-costura.
Felicidade: a apresentação foi planejada pelo estilista com a ideia de nos fazer rir. Não deu outra!
Guinada: o formato e a irreverência na estreia da AZ Factory vão entrar para a história da couture parisiense.
Hi-tech to high fashion: tecidos de microfibra de náilon ecotingidos, usados em roupas esportivas, foram transformados em peças atemporais de alta-costura.
Instinto: é como Elbaz define seu processo criativo agora. “Estamos vivendo nos anos inteligentes, porque aprendemos que não podemos controlar a natureza – somos parte dela”, analisa.
Joint venture: o formato foi adotado na parceria com o conglomerado suíço Richemont (dono de marcas como a Chloé e a Cartier).
Knit: batizada de Anatoknit, a tecnologia reúne diferentes técnicas de tricô invisíveis. A trama faz compressão gradual em áreas específicas, ressaltando suavemente as curvas naturais do corpo.
Luxo: em versão digital. As plataformas Farfetch e Net-à-Porter, além do e-commerce próprio, foram escolhidas para o lançamento da marca.
My Body: por meio desse projeto, Elbaz reinventa o vestido preto, que molda o corpo com o Anatoknit.
Numeração: inclusiva, vai do 2XS ao 4XL. “Estamos aqui para todas as mulheres.”
Oversized: “Eu também sou oversized e sempre usei camadas. Então pensei: ‘Por que me esconder?’.”
Pointy sneaks: o conforto de um tênis que agrega o efeito visual de alongar a silhueta, próprio de um escarpim de bico fino.
Quero já: os acessórios reúnem joias para ser usadas como peça de arte e expressão corporal e lenços statement.
Reset: o estilista diz que gosta do sentido dessa palavra. E também de “esperança” e “propósito”.
Switchwear: básicos que vão do lazer à festa, pijamas para dormir ou dançar a noite toda.
Tripé: moda, tecnologia e entretenimento definem a AZ Factory.
União: o programa de fidelidade da marca, Alber & Amigos, traz uma série de vantagens, de frete grátis a eventos e histórias exclusivas.
Vulnerabilidade: mais humildade faz parte do DNA da marca, segundo o estilista. “Vida, e não apenas lifestyle”, ressalta.
Xis da questão: “Nossos produtos estão aqui para resolver problemas e criar alegria.”
Zíperes: ficam nas laterais ou na frente. Na parte de trás, vêm com uma alça longa, que facilita o fechamento da roupa.
Alber Elbaz de perto:
O fashion designer Alber Elbaz, nasceu em Casablanca, Marrocos, e foi criado em Israel. Estudou no Shenkar College of Engineering and Design. Em 1985, iniciou a jornada na moda em Nova York com o icônico designer Geoffrey Beene, permanecendo por sete anos como Designer Chefe. Em 1996, Alber se tornou o Diretor de Design da Guy Laroche em Paris, antes de suceder a Monsieur Yves Saint Laurent na YSL como Diretor de Criação da Rive Gauche de 1998 a 2000.
Em 2001, Alber iniciou a bem-sucedida etapa de 14 anos como Diretor de Criação na Lanvin. Em 2019, ele anunciou a AZ Factory em parceria com a Richemont, focada em um abordagem unindo inovação e design, e atenção especial às necessidades reais das mulheres.
Premiações: Prêmio Internacional do CFDA em 2005; o Chevalier da Légion d'Honneur, bem como as distinções das 100 Pessoas Mais Influentes do Mundo da Time Magazine em 2007; um doutorado honorário do Royal College of Art de Londres em 2014; e foi nomeado oficial da Légion d'Honneur em 2016. Alber morava em Paris.