Estilista Luiz Claudio Silva fala sobre talento e resistência em última coleção
Voz importante na luta pela inclusão na moda, o estilista Luiz Claudio Silva conta como esse tema se relaciona com sua última coleção, Cura, e se prepara para inaugurar loja-ateliê
O estilista Luiz Claudio Silva sempre quis que sua roupa falasse por si mesma, em uma postura bem parecida com a de Martin Margiela, que raramente dava entrevistas quando comandava sua marca homônima. Foi Virgil Abloh, entretanto, quem fez o mineiro perceber o lado positivo da pressão para que ele se mostrasse mais, principalmente nas mídias sociais. O combustível, explica, é a certeza de que contribui para quebrar barreiras a partir de sua própria trajetória, colaborando com o debate sobre a inclusão na moda brasileira. “Teve uma menina que me escreveu e aquilo me deixou muito (emocionado) porque ela não se via dentro de um ambiente como esse, sabe? Entendi o quanto é importante a minha cara aparecer. Até porque a minha marca não tem meu nome.”
É por isso que o último desfile de sua grife, a Apartamento 03, no SPFW, teve sabor especial. Além de marcar seu retorno para o presencial – o evento foi em formato híbrido –, ele conta que, realmente, pela primeira vez conseguiu o casting que sempre quis, quase todo formado por modelos negros. “Nem sempre achei que isso fosse possível. Dessa vez, eu tinha as pessoas mais bonitas por perto”, conta, sem esconder o carinho e a gratidão de ter reunido nomes como a modelo Rita Carreira, Natasha Soares (uma das fundadoras do Projeto Sankofa), o ator Ícaro Silva, a influenciadora Camilla de Lucas e Rosa Santos, sua modelo de prova há quatro anos, além do artista paraense Labô Young, que ganhou fama internacional transformando folhagens em roupas e acessórios.
Luiz Claudio diz que reunir essas pessoas só fortaleceu o tema da coleção, Cura, terceira parte da trilogia que começou com as coleções Um Ensaio sobre a Cegueira e Janela – ambas apresentadas em formato de vídeo. Juntas, são um livro aberto de como o estilista tem sentido e vivido a pandemia, desde o desafio de manter a fábrica a pleno vapor e o cuidado com os funcionários até a decisão de encarar o show presencial. “Gosto de mostrar a roupa de perto porque a minha história é com o tecido”, explica, acrescentando: “A ideia era ter apenas 50 pessoas na sala de desfile e mesmo assim eu estava feliz. Também sabia que elas estavam vacinadas. Foi emocionante.”
L ́OFFICIEL: Dentro do tema Cura há um aspecto muito importante: as pessoas. Foi a ideia por trás das bonequinhas que aparecem em várias peças?
LUIZ CLAUDIO SILVA: Há muito tempo eu queria ter essas bonequinhas aqui em casa. Há uma ideia romantizada de que entre as pessoas escravizadas que vinham da África, as mães rasgavam a barra da própria roupa e faziam essas bonequinhas. Elas são feitas de nó, sem agulha ou linha, e eram dadas para as crianças. Mas tem, também, significado de resistência. Pesquisando, encontrei a artesã Caroline Falero, que fez 50 bonecas para eu colocar em um quadro. Quando chegaram, liguei para agradecer e Caroline contou que as bonecas foram um ato de cura para ela, tanto de trabalho quanto de se entender como mulher negra neste país. Foi então que surgiu a ideia de fazer um monte de bonecas para o desfile com os tecidos da coleção.
Cura também aparece na referência a Omulu, considerado o médico entre os orixás e que usa um capuz de palha. Foi a primeira vez que você trabalhou com esse material?
Paulo Raic (videomaker) me lembrou de uma coisa: estava saindo da Federal (Universidade Federal de Minas Gerais) e o tema do (prêmio) Smirnoff de 2000 era natureza virtual e a roupa que eu fiz (e venceu a premiação) era toda em junco. Tem algum significado aí porque o meu orixá é Omulu. A palha também chegou por acaso. Um amigo apresentou uma amiga (a designer Bruna Prebay) que faz bolsas com cara de praia. Pedi para ver e quando elas chegaram pedi o material para fazer um teste. Recebi uma esteira. Cortei e pedi mais 50. E aí a gente começou a brincar com isso dentro das minhas modelagens.
Foi desafiador modelar a palha?
Já trabalhei com muita coisa complicada (risos). Só não sabia se dava para costurar e se seria confortável, mas foi gostoso de fazer. Não vai para a loja porque é muito caro e não tem a vida útil que o cliente final pede. É uma coisa muito mais de imagem e que depois pode ser reproduzida em franjas de tecido.
Cura também se conecta com o casting?
Se você pegar o meu cronograma de desfiles, que é grande (a marca tem 15 anos), verá que o casting no início era outro. Quando a gente está falando de pessoas que são pretas, racializadas, é importante ver alguém que se parece com você em lugares de destaque. Mas eu nunca achei que fosse conseguir, por exemplo, ter o Ícaro ou a Rita Carreira em um desfile e foram coisas que aconteceram de um jeito tão orgânico... E houve algumas pessoas que vieram de presente para assistir, que eu não sabia, como a Liniker. Fiquei emocionado quando ela entrou no backstage e me falou que se viu em várias mulheres na passarela. A gente se fala por mensagens e sempre a visito, mas foi para mim um ponto de chegada. Descobri várias possibilidades; às vezes a gente não acredita que possa ter voz. E quando você usa essa potência descobre que há pessoas que estão vendo seu trabalho e estão distantes porque é isso mesmo. Mas elas estão ali para te apoiar.
Não deixa de ser uma luta pessoal...
É uma luta pessoal que conta a história de várias pessoas de vários lugares. Cada uma tem sua história, mas, normalmente, são todas muito parecidas.
Como você enxerga os temas racismo e inclusão na moda?
Parto do princípio de que as coisas aconteceram porque as pessoas que são racializadas lutaram por isso. Por mais que se diga que todos somos todos iguais, a gente sabe que não é assim. A gente sabe que não chega (oportunidade) para todo mundo. São vários médicos, arquitetos, dentistas, artistas plásticos, cantores, atores que são invisibilizados porque não tiveram ou têm uma chance e acabam escolhendo outro caminho. Eu estou falando isso pela minha própria história. Eu morei num lugar onde não havia escolha, mas eu ia para a escola e todo o dinheiro que a minha família conseguia era para isso e para comer. Havia coisas mais fáceis e me foram oferecidas várias vezes. Quando eu falei para minha mãe que queria trabalhar com moda, não parecia possível para ela que eu me tornasse estilista. Parecia possível ser costureiro. É por isso que ela me ensinou. Mas ser um estilista, estudar moda, parecia um sonho.
Ela é muito presente na sua vida?
Sim, ela e pai. Não falo muito porque ela está com 79 anos. Uma vez eu a levei em um desfile no Minas Trend, ela ficou extremamente emocionada e eu fiquei com medo de ela passar mal. Quando descobriram que era minha mãe, a colocaram na primeira fila ao lado de pessoas que ela imaginava serem importantes e todo mundo queria tirar uma foto. Foi muito pesado.
Sua mãe sabe que você conta que ela te pedia para refazer as casas dos botões até estarem perfeitas?
Ela lê tudo que publicam. Por causa da pandemia, não tem saído de casa, mas antes ia sempre na fábrica e ficava olhando as roupas. Ela não me cobra, mas cobra das pessoas que trabalham comigo. O que ela reforça muito é se está bem-feitinho, sabe? Se o acabamento está certo, porque na época que ela costurava não tinha máquina overloque, tudo era feito à mão. Ela fazia a roupa, virava do avesso e fazia o acabamento manualmente.
Ela deve ter muito orgulho de você...
Eu penso que sim (risos). Meu pai nunca concordou; é claro, isso é uma história clássica. Mas existiu um momento em que eu fiquei muito conhecido em Belo Horizonte. Meu pai estava bebendo com os amigos e alguém chegou com o jornal e havia uma entrevista comigo. Ele ficou todo orgulhoso de os amigos saberem que o filho dele era conhecido no jornal.
Nesse último desfile teve a Camilla de Lucas e a Rosa Santos, que nunca haviam desfilado. Também foi com o intuito de abrir espaço?
Foi. A Rosa prova (as roupas) para mim há quase quatro anos. Quando estávamos montando o casting e pensando nas pessoas que queria trazer, falei com Dani (Ueda, stylist do desfile e que fez o casting junto com Bill Macintyre): “E se eu levasse a Rosa?” Fiz o convite, disse que era a oportunidade de ver de pertinho o que é a passarela do SPFW porque ela faz parte da nossa história. E tem vários significados nisso. A Rosa também atravessou a pandemia com a gente. Ela foi a modelo de prova, inclusive, de todas as roupas dos vídeos. Então, nada mais justo do que estar naquele momento em que a Apartamento 03 voltava para a passarela. A Camilla veio porque tenho contato com vários stylists. Um deles é o Erick Maia, que me contou que o sonho da Camilla era fazer SPFW e a gente começou a conversar. Contei para ela a história da coleção porque eu acho que tinha que ter significado e não somente porque ela é ex-BBB. Ela abraçou a ideia.
Inclusão é a sua bandeira?
Não tem como não ser. Não tem como eu acordar pela manhã sem pensar nas pessoas que se parecem comigo. E tem um ponto: faço parte de outra realidade, não da realidade de Paris ou Milão. No Brasil é outra coisa. Eu sempre acho que os estilistas aqui são muito mais ao estilo “tirar leite de pedra” do que lá fora. Eu demorei também para entender que nós temos uma riqueza que passou muito tempo despercebida pela moda. Quando aparecia na passarela alguma coisa falando do país era sempre muito caricato. Um olhar estrangeiro para uma coisa que é da gente mesmo, de pessoas que não se viam. Acho que, trazendo as pessoas, outros olhares, outras experimentações de coisas que são da nossa terra é sempre muito mais prazeroso.
Qual é a sua maneira de falar sobre isso?
Eu sempre fui pela delicadeza, que tem muito a ver com o que disse sobre minha entrada no SPFW, de ter sido silenciado por tanto tempo. Não sei se é o certo. Mas são as coisas em que eu acredito, que eu defendo.
São mensagens que aparecem sutilmente nas coleções... Você faz essa leitura quando as roupas estão prontas?
Eu só consigo fazer essa leitura depois que eu saio do desfile. Eu nunca tenho certeza se está bom. Eu nem consigo ver o desfile logo depois que aconteceu, inclusive. Eu me sinto meio nervoso pensando que podia ter feito de outro jeito. Talvez porque eu seja virginiano, mas eu tenho essa preocupação, um cuidado com cada pessoa que estava ali. Minha história não pode ser contada apenas por mim. Tenho essa preocupação de saber se está tudo direito, se as pessoas estão felizes com o que estão fazendo, se a roupa está confortável... porque tem que ser uma felicidade para todos.
E como anda o projeto da loja-ateliê em Belo Horizonte?
A loja está quase saindo do papel. É um sonho de muito tempo. E minha intenção é ter masculino e uma roupa com modelagem especial para vestir corpos maiores com conforto e beleza. Quero fazer isso bem-feito, então vai me tomar um pouco mais de tempo.