Moda

Flavia Aranha abre o seu coração em entrevista com a L’Officiel

A estilista vem trilhando nos últimos 13 anos, um caminho à parte da indústria, e em um bate-papo exclusivo com a L’Officiel Brasil, deu detalhes de seu processo criativo com a última coleção ‘Caaipora’

adult female person woman body part hand head face
A estilista Flávia Aranha ajusta o top na modelo (Foto: Igor Kalinouski)

Flavia Aranha pode nem aparecer tanto, mas está longe de ser alguém que não tem novidades para contar. Nos últimos 13 anos, vem trilhando quieta um caminho à parte da indústria, com foco numa produção com pegada sustentável e que abriga seus amores, como os tingimentos naturais. A última coleção, Caaipora, se baseia na impressão botânica feita à mão no ateliê, com crajiru e sementes de urucum. 

Em paralelo, tem investido em pesquisas tecnológicas que levaram suas tinturas para o chão de fábrica e geraram novas fibras têxteis genuinamente brasileiras — bem longe do ideal hippie que muita gente ainda impõe sobre a moda consciente — além de se preparar para receber o primeiro filho e transformar sua marca em holding.

Do alto das 35 semanas de gravidez, balanceando a vida de empresária com a maternidade, Flavia falou com L’OFFICIEL sobre os planos ambiciosos de futuro, novos desejos e as revoluções que enxerga no horizonte. Confira:

L’OFFICIEL Esse momento maternidade, sente que impactou de alguma maneira o seu processo criativo?

FLAVIA ARANHA Acho que fiquei mais pragmática. Naturalmente se desenvolve um lado prático, afinal temos aqui um prazo para lidar. No lado criativo, vou te contar que realmente senti as coisas mais férteis. Percebi que dá uma força, as ideias fervilham. Mas, com as demandas do dia a dia, mal consegui colocar isso tudo para fora. Talvez seja algo que reverbere até depois que o José nascer. 

L’O José era o nome da sua linha masculina, não? 

FA Era, agora não quero mais! Deixei só para o filho, os homens vão vestir Flavia Aranha mesmo. José é o nome do meu avô, que morreu quando eu tinha 3 anos — era muito apegada a ele, tenho esse afeto que é movido até por uma memória meio inventada. Sempre achei que fosse ter uma filha, já tinha cinco nomes escolhidos. Achava que nem precisava de ultrassom, daí veio essa surpresa. Só tinha um nome possível. E para o Bruno, o pai, também tem um significado. Então foi fácil. 

L’O A Flavia Aranha marca completou 13 anos recentemente, sinto que construída sem grandes atropelos. Você é uma pessoa de longos planejamentos? 

FA Mais ou menos… acho que é uma impressão de fora. Sem - pre olhei para o longo prazo, mas sou muito intuitiva. Quando abri a marca, estava superdesiludida com a moda, queria apenas um ateliê. Foi em 2009, junto com a Luiza Perea, um espaço que depois virou loja. Fui aprendendo a ser empresária, não era algo natural. Foi um processo orgânico, movido por um desejo de longo prazo — o ateliê, as lojas, esse novo galpão desde 2018. Para cá, viemos porque queria desenvolver tecnologia: ter laboratório, máquinas, precisava de espaço. As decisões foram sempre pautadas pelos desejos. Por outro lado, não faço loucuras; estruturo tudo com raiz. Já sabia que não viveria da minha imagem, pois sou tímida. O impacto na cadeia me é mais importante. Hoje, até tenho certas crises. Eu era muito feliz com a panela, a botânica, descobrindo coisas. Não era meu sonho ser empresária e lidar com o RH, o financeiro, as estratégias. Foi algo que tive que aprender para acomodar as minhas vontades. 

L’O O desejo de ser uma marca assim veio desde o começo? 

FA Sempre fui empreendedora. Entrei no corte e costura aos 13, na oitava série já vendia roupas na escola. Sempre quis autonomia, não ter chefe. Acho que comecei a partir de uma revolta com o mundo, aquela juventude que quer mudar tudo. Essa questão política e social sempre foi uma característica. Quando entrei na moda, era essa pessoa de esquerda num universo bem difícil, especialmente no empresariado. E a moda é um espaço em que você enxerga a desigualdade social escancarada. A marca tem a ver com me encaixar: quem sou, as minhas angústias e desejos. Ao mesmo tempo, já que estou aqui, como posso transformar? É muito difícil quando começo a ficar desiludida, a achar tudo uma grande bobagem. 

L’O Mas há esse momento? 

FA Muito! De um lado, eu era mais ingênua, claro. Do outro, há o capitalismo que sempre come pelas beiradas e se apropria do que é resistência — vira mainstream e fica tudo igual. Quando comecei, tinha um monte de gente no mesmo caminho; todo mundo teve que desistir, fechou e foi pagar boletos. Enquanto isso os grandes grupos estão na COP27 “salvando o planeta” e acomodando o que precisa ser transformado. 

clothing formal wear suit coat mannequin
Modelos vestem looks com tingimento natural (Foto: Igor Kalinouski)

L’O Sente que nada muda? 

FA Se você olhar… a marca tem 13 anos, o que mudou de fato na moda? Ok, falamos muito sobre diversidade. Mas o que é, de fato, mudança estrutural? Continuamos sem dinheiro para inovação. Ninguém quer investir em uma tecnologia nova. Então é muito mais fácil você trazer impacto social: faz uma campanha linda, vira imagem, fala de diversidade. Mas não mexe na base. Enxergar isso é duro, então às vezes desanimo — ainda mais nesses quatro anos de Bolsonaro. Agora, deu uma revigorada. Por exemplo, colhemos a primeira safra de algodão com a Rede Borborema: um grupo de agroecologia da Paraíba que só fornecia para a Vert. São extremamente politizados, empoderados, com transformações incríveis. Saio de lá revigorada, achando que tudo faz sentido — aí, a força renasce. Vivo renascendo, especialmente quando volto para a raiz dos meus grandes objetivos.

L’O Que vão além da roupa? 

FA Eles não estão na marca em si, ela é minha maneira de viabilizar. Faz muito sentido quando se vê uma transformação profunda de território — que não é só da terra, mas da mentalidade, dos arranjos sociais. Da presidenta dessa Rede ou do casal de mulheres agricultoras que discute no mesmo nível dos homens. Você enxerga uma cultura extremamente machista se regenerando com a terra. E há ali a soberania alimentar, um controle de quem pode comprar o que produzem. Não é sobre “ajudar pessoas pobres”, algo horrendo de se falar. Trabalhamos juntos, em nível de igualdade. Isso me estimula, quando vejo o meu trabalho se conectando com esses lugares. Claro, crises acontecem — especialmente quando se vê como as coisas são complicadas. Agora estou finalmente pronta para lançar uma fibra, depois de quatro anos. Daria para ter feito antes, se um grande grupo quisesse. Mas não há um interesse real de transformação, isso desanima. 

L’O Quando começou a cutucar esse assunto na moda, você era uma voz meio única sendo ouvida pela bolha. Acha que, nesse tempo, conseguiu mudar algo, na prática?

FA Não sei mensurar. Diria que inspirei muita gente a seguir o caminho do empreendedorismo, tentar fazer diferente. Você percebe uma conexão com jovens designers que querem caminhos parecidos. Ao mesmo tempo, entendi o limite de ser uma iniciativa dentro desse sistema imutável. Há certas incoerências do que nos rege, do capitalismo mesmo. Consegui provar ao mercado que dá para fazer de outra forma. Algumas coisas, conseguimos influenciar, despertar consciências. Mas uma grande mudança? Dizer que a moda está Ok? Acho que não. 

L’O Não acha que poderia ser um caminho que é menos sobre mudar o sistema e mais sobre construir uma alternativa paralela? 

FA Sim, concordo. Mas, na prática, não muda. É como comer alimentos orgânicos: é ótimo, mas, sob a terra, que está linda, temos o lençol freático contaminado pelo agronegócio da soja. Por mais que tente criar a sua bolha, o sistema impacta. Aprendi a amadurecer muito a arrogância do “vamos mudar a moda”. Estamos construindo, é uma trajetória sólida. Ter um negócio de sucesso não é o que me sustenta. Não tenho força para ficar nesse lugar. O desejo de transformação é o que me dá sentido. 

L’O Esse papel que assumiu, da moda sustentável pensada de outra maneira, com outros jeitos de produzir usando insumos naturais: não é complicado sair do ateliê e escalar numa produção que não destrua esses preceitos todos? 

FA Não acho que seja, isso que me revolta. O mercado tem uma capacidade de desenvolver tecnologia que não se usa. A marca chegou agora à indústria, que foi um passo importante. Estamos conseguindo produzir os tecidos em rolo, com o mesmo tingimento natural do ateliê. É a mesma tinta que eu fazia na panela, e agora em maquinário de alta performance. Então há essa potência de escalar, não depender mais das panelinhas. Aí você dimensiona para o tamanho do Brasil… Só um grupo que trabalho, o Empório do Cerrado, reúne 2 mil famílias. Há muita história no movimento agroecológico, as famílias assentadas pela reforma agrária que vão sendo pegas pela indústria da soja, de forma perversa. Se você recupera essas pessoas, que voltam a produzir do jeito certo, regeneram o solo: isso gera renda para essas famílias, se transforma em tinta e corante, em comida e remédio. Olha a potência que há no trabalho em rede, desconstruindo a lógica da monocultura. É possível aliar ancestralidade à inovação, esse é nosso lema. 

L’O E consegue aplicar aqui? 

FA Sim, estou nesse processo do futuro que acredito: tentar descentralizar a indústria. É uma visão que outros mercados já têm, mas a moda não: escalar sem concentrar, criando processos inovadores. É maravilhoso ser pequeno, ter o ateliê, uma relação afetiva com o seu trabalho. Uma liberdade que, hoje, nem tenho mais. Agora, se quer levar para um nível de mercado, há essa capacidade de pegar esse conhecimento e transformar em tecnologia. Inclusive com produtos que não têm só essa cara do natural. Esse foi outro problema: a moda sustentável ficou, por muito tempo, conectada a essa estética do rústico, do natural. Isso foi um erro de linguagem. Até a própria ideia da sustentabilidade, que é extremamente vazia. A vida não é sustentável, nada é. Mas construir outros caminhos, usar o seu trabalho para ter boas relações — com a terra, com as pessoas — já é maravilhoso.

clothing sleeve adult female person woman standing
Modelo veste look com tingimento natural (Foto: Igor Kalinouski)

L’O Diria que essa mudança é falta de interesse da indústria ou ela nem sabe desse potencial todo? 

FA De verdade? Nem querem. Estão ganhando dinheiro as - sim. Criou-se uma ideia no mercado de que, se você não incorporar a história da sustentabilidade, ficaria de fora. Isso foi positivo, pois todos tiveram que lidar com o assunto. Em paralelo, está lá a Shein ganhando rios de dinheiro e mostrando que nada mudou muito. Na hora da comparação, muita gente recua: não é legítimo, é apenas uma imposição. Se o concorrente lucra sem fazer nada, por que o empresário vai gastar dinheiro para se adequar? A discussão não é geral, ocorre no paralelo. Sempre existirão movimentos de resistência, inovadores, de gente que não quer crescer. Do outro lado, gente que usa plástico mesmo, nem liga, nem acredita em nada. Nesse tempo, compreendi que a vida é esse caos. Não há uma linha certa, não posso dizer que a minha trajetória é a mais correta. O ser humano é complexo demais. 

L’O E o seu público consumidor, quanto mudou nesse tempo? 

FA Era um público mais nichado, com olhares em comum. Foi se ampliando, ficou mais heterogêneo, mas é um público coerente. Desde a que acredita 100% nos ideais até aquela que entrou na onda de comer orgânico e não quer usar poliéster ou a que só quer uma roupa bonita. E tudo bem, não é todo mundo que precisa militar. Acontecem momentos interessantes de transformar a cabeça daquela mulher que apareceu do nada e vai imergindo na história, fazendo mudanças pequenas em casa. Já tivemos cliente que plantou 2 mil mudas de pau-brasil na sua fazenda depois de um evento que fizemos. A marca tem esse poder de influenciar, de fazer despertar para certos assuntos. 

L’O Na massa, sente que há alguma consciência? 

FA Mais ou menos, ainda é um nicho. Normalmente o consumidor até acha legal, mas não é o fator de decisão — se achar uma coisa bacana na Zara, ele vai comprar sem dor na consciência. Eu nem critico, pois isso não é responsabilidade do consumidor. É da indústria, do governo, do sistema. Não dá para jogar na conta do consumidor. Isso é isentar a indústria da responsabilidade que ela tem e precisa abraçar. A indústria pode fazer melhor, algumas já fazem. A Dalila, por exemplo, com quem conseguimos desenvolver o tingimento natural em rolo: eles se abrem, têm esse interesse. Tenho o WhatsApp do chefe da química, imagine. É uma troca de saberes. Assim como o movimento que Dalila e Cataguases estão fazendo na Paraíba, de olho no algodão sem agrotóxico. Há alguns industriais abertos a transformações concretas. Não é sobre ingenuidade, óbvio que há um interesse de mercado — mas ninguém fez isso até agora! O mercado fica muito preso nessa preguiça de dizer que, quem não quer mudar, é o consumidor.

L’O Como vai funcionar essa holding que está preparando?

FA São mil novidades acontecendo, em paralelo com a gravidez, que me deixam bem empolgada. Até 2020 eu era 100% independente, agora tenho investidores. E estruturamos esse grupo, o Teia. Embaixo dele fica a Flavia Aranha, que segue igual. Daí tem a Roda, uma loja para vender matéria-prima — tecido por metro, malha, fio, corante a granel — com foco nos jovens, pequenos empreendedores, a artesã que quer algodão orgânico ou o artista que precisa de insumos para fazer as suas próprias tintas. Vai ter sobra de teci - dos também, mas não é o foco. Produziremos rolos novos, venderemos nossos botânicos para fomentar os grupos produtores com os quais trabalhamos. No segundo andar, um brechó de peças de segunda mão da própria marca — através do projeto Circular, que já existe e recebe as roupas antigas das clientes. E a Trama, uma escola para abrigar workshops de tingimento e também um ateliê aberto. Quero chamar outras pessoas para discutir inovação, dar espaço para pro - mover essas conversas. Há uma geração por aí que não quer mais ser grandes estilistas, tem uma onda forte de pesquisa de materiais — mas vejo que essas pessoas estão soltas, num limbo, é difícil chegar ao mercado. Então a escola pode ser esse hub de pesquisa e inovação. E o quarto braço é a Cora, que vai desenvolver essa pesquisa de tecnologia de fibras e corantes em esquema B2B. Muita coisa que pesquisamos, nesses 13 anos, ficou restrita à Flavia Aranha; preciso espalhar.

“AS pessoas TÊM QUE ENTENDER QUE O ambiental e o social ESTÃO entrelaçados. QUANDO FALO EM agroecologia, FALO SOBRE UMA GERAÇÃO QUE FICOU PARA empreender E ESTÁ GERANDO VALOR ATRAVÉS DA tecnologia para comunidades INTEIRAS. ”

clothing sleeve adult female person woman
Grávida do primeiro filho, Flávia Aranha conta que a gestação a deixou mais criativa (Foto: Igor Kalinouski)

L’O É muito filhote novo, além do José. 

FA É um olhar muito grande. A Cora é para 2024, mas todo o projeto começa em agosto. E abriremos uma quarta loja, em outubro, no Rio de Janeiro. Sabe, aceitei que posso ser essa pessoa múltipla. Ao mesmo tempo que quero ser mãe e ficar no meu ninho, fazer um desfile de vez em quando, nutrir o sonho de voltar a ter um ateliê… quando vejo, estou disparando mil ideias. 

L’O Essa fibra que você comentou antes, que história é essa? 

FA A malva é uma fibra da Amazônia que só dá em beira de rio. O que eu mais gosto é que é uma planta que se protege: impossível plantar em monocultura. E já é uma fibra produzida pela agricultura familiar, da população ribeirinha, usada para sacaria da indústria de café, de forma mais rústica, tipo uma juta. Tem propriedades antifúngicas, perfeita para esse uso. Agora, estamos no processo para transformá-la em linho. Vendemos muita roupa de linho, mas ele é importado — a única fibra que trazemos de fora. E olha o tamanho do Brasil, por que não achamos alternativas? O algodão agroecológico é maravilhoso, mas não precisamos parar nele. Comecei a pesquisar como deixar a malva mais leve, mais macia. Foram quatro anos batendo nas portas e buscando ajuda, pois não dá para fazer sozinha no ateliê, sem maquinário. Então juntei a Lady, minha fornecedora de linho que me acolheu para esses testes, com a Castanhal, que já controla a produção da malva e percebeu o potencial de outro mercado. Estamos chegando ao fio que consiga tecer uma malha, uma cambraia. Mas só de ter um produto que é 100% malva, produzido por essa cadeia que vem da Amazônia com as famílias ribeirinhas, já é o máximo. Outra história que começamos é a bromélia. Estou me juntando a pesquisadores do IPT da USP para chegar a uma fibra vegetal com toque parecido com o da seda. Fiquei muito tempo nos corantes, essa parte das plantas virando tecido é meu novo grande amor. Por isso abriremos a Cora, não faz sentido isso ficar só para a Flavia Aranha. 

L’O Há muito potencial perdido por aí.

FA Sim! Tem esse livro [Dissertação sobre a plantas do Brazil] que mexeu muito comigo, de um português que, nos 1800, já se perguntava por que essa indústria não é desenvolvida e fica trazendo tecido de fora. Ele já tinha essa angústia naquela época! A bromélia veio muito dessa pesquisa dele. Essa ancestralidade no mesmo lugar da pesquisa acadêmica, os conhecimentos se dando as mãos, são novas possibilidades de enxergar o mundo. Há um espaço enorme para vivermos e produzirmos. A malva é algo que já tem uma cadeia produtiva e mostra que é possível trabalhar com regeneração e indústria ao mesmo tempo. Fico apaixonada quando começo a falar de fibras e novos materiais. Isso me move, vejo meu futuro muito nesse lugar. 

L’O A história da Cora é sua maneira de viabilizar isso? 

FA Sim, é para ser uma empresa que consiga deter tecnologia a longo prazo. Acho que estamos à beira de uma revolução. Vejo a inovação na mão das máquinas menores em produções descentralizadas. Não precisamos de indústrias imensas, maquinários monstruosos que inviabilizam o processo de inovação. Essa pesquisa está andando com o desenvolvimento de produções menores e locais. Pense no futuro da agricultura, como se retém os jovens nesse ambiente? É levando a inovação para eles, mostrando que podem beneficiar o próprio algodão fora dos grandes centros. As pessoas têm que entender que o ambiental e o social estão entrelaçados. Quando falo em agroecologia, falo sobre uma geração que ficou para empreender e está gerando valor através da tecnologia para comunidades inteiras. É um impacto imenso que funciona fora das grandes mãos do mercado. Por mais que sejam pequenos movimentos, está acontecendo — e vai ficar mais forte nos próximos 10, 15 anos. Não só na moda. Tem muita gente jovem olhando para esse lugar da pesquisa: uma fazendo “couro” de angico, outra trabalhando com algas. O problema é que pesquisa precisa de dinheiro, de longo prazo. E a moda tem muita dificuldade em pensar a longo prazo. Isso não existe. É um erro.

L’O Com essa empolgação toda… acha que vai parar de produzir roupas para focar nas fibras? Seria um novo momento? 

FA Não sei, já me perguntei muito isso. Esse caminho das fibras faz os meus olhos brilharem. Ainda amo fazer um desfile, pintar tecido à mão, é algo que me dá prazer. O dia a dia da indústria, nem tanto. Interessa-me ainda o lado do ateliê. Talvez outras pessoas me substituam nesse lugar da criação da roupa para a loja da marca. Ainda mais com esse momento da gravidez, tenho me forçado a deixar a estrutura funcionando sem depender tanto de mim. Talvez esse movimento do grupo deixe a Flavia Aranha mais leve, com menos pressão para crescer. É a missão do impacto que falei antes. Tenho o lado empresária, que quer entregar essa potência ao mundo, mas sinto falta dessa gestação solitária. Não vou abrir mão do material, da textura. Esse lugar ainda me cativa. 

FOTOS: IGOR KALINOUSKI
MODELOS:  Camila Deodatti (ATTO) e Yasmin Bressan (ATTO)
STYLING: Pedro Arthur
PRODUÇÃO DE MODA: Tais Teixeira
BELEZA: Dani Quess
ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA: Rodrigo Gonçalves
ASSISTENTE DE BELEZA: Vinicius Vilas Boas
CAMAREIRA: Eva Lima
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Anna Guirro

Tags

Posts recomendados