Design: Charlotte de Tonnac e Hugo Sauzay em entrevista exclusiva
Em apenas dez anos, Charlotte de Tonnac e Hugo Sauzay, fundadores da Festen, se tornaram nomes importantes no mundo do design de interiores. De Paris à Cidade do México, a abordagem da dupla é baseada no respeito pelo espaço.
L’OFFICIEL Como vocês descreveriam o DNA da Festen?
HUGO SAUZAY Essa é uma questão difícil, porque nunca é fácil descrever o próprio trabalho. Mas, se temos de resumir, somos uma agência de design de interiores que trabalha em prédios já existentes, cuja história nós reinventamos. Nossa tarefa é fazer um elo entre o que aconteceu, o que está acontecendo e o que vai acontecer depois. Não queremos impor um estilo. Trabalhamos principalmente com materiais naturais, com foco local. Queremos ser coerentes e justos com os projetos que nos oferecem. Também gostamos de imperfeição, pátina, coisas que não são tão perfeitas.
CHARLOTTE DE TONNAC Renovamos espaços sem nenhum tipo de imitação. Fazemos ajustes, nunca uma “visão geral”.
HS Gostamos de compor e de manter a liberdade em nossas escolhas. A principal qualidade que os clientes reconhecem em nós é o respeito pelos espaços em que trabalhamos. Fica a impressão de que as coisas sempre foram daquele jeito, como se não tivéssemos feito nada, apesar de, muitas vezes, termos demolido quase tudo.
L’O As demandas dos clientes mudaram com a pandemia?
CDT Algo que já estava se tornando mais popular e que cresceu exponencialmente é o trabalho com artesãos e materiais locais. Não vamos procurar uma madeira exótica no outro lado do mundo para um projeto em Paris. Não usamos necessariamente materiais superinovadores, mas reestruturamos e restauramos o máximo possível.
L’O A arte contemporânea tem lugar nos projetos de vocês?
CDT Está começando a ter. Isso vem com o cliente, mas é uma novidade. No setor hoteleiro, é difícil integrar a arte ao projeto, por questões impostas pelas seguradoras. Mas, para clientes particulares que já têm uma coleção, construímos um diálogo entre a casa e a arte.
L’O Que tipo de relação vocês têm com os designers de moda e suas butiques?
CDT Fazemos consultoria para a Nanushka, decorando todas as lojas deles em Londres e Nova York. Gostamos da estratégia responsável da empresa. Mas fazemos muito poucas butiques. Na ideia de uma loja, existe a noção de conceito, do “uau” imediato, mas nossa arquitetura precisa ser vivenciada e compreendida. A Nanushka está mais ligada a um conceito de espaço para passar o tempo. Também já trabalhamos com os perfumes da Ormaie, para a qual desenvolvemos alguns objetos. É mais uma colaboração entre diretores artísticos.
L’O Fale um pouco sobre seu projeto em Paris com Thierry Gillier [fundador da Zadig & Voltaire e colecionador de arte contemporânea] e com o diretor artístico Franck Durand.
HS O hotel Château Voltaire é a pedra fundamental do projeto da Zadig & Voltaire, mas não tem nada a ver com a marca. O espaço é o antigo escritório de Thierry Gillier. Depois de ter procurado arquitetos por muito tempo, sem sucesso, e cheio de expectativas muito específicas, Thierry chamou Franck Durand para ajudar. O hotel é feito de três prédios conectados entre si, cada um de um período distinto. É uma síntese de Paris em si mesmo. Thierry, que viaja bastante, tem gostos muito específicos. Ele tem seus hotéis favoritos, como o Mercer, em Nova York, e o Chiltern Firehouse, em Londres. Seu hotel de 34 quartos foi feito, então, com materiais nobres: tapetes florais, molduras pintadas à mão, tetos em caixotão e uma mistura de estilos. É muito confortável, aconchegante, com iluminação suave, e tem seu próprio restaurante.
L’O Vocês também terminaram, recentemente, um hotel muito bonito em Portofino, para o grupo Belmond.
HS Sim, acabamos de finalizar o Splendido Mare. Foram mais de dois anos de trabalho, em 16 quartos com vista para um dos locais mais bonitos do mundo: o porto de Portofino. O hotel simboliza a dolce vita em todo o seu esplendor. Começamos com inspirações náuticas, usando madeira envernizada, cabeceiras com marchetaria de corda e pintura à mão, além de mármore de Carrara.
L’O No que vocês estão trabalhando agora?
HS Dois hotéis na Espanha – um em Palma e o outro em Begur, perto de Cadaqués. Também estamos construindo um hotel em Nice, em um antigo convento, outro na Cidade do México e, finalmente, duas residências, uma em Londres e a outra em Nova York.
L’O Vocês são muito conhecidos pelos projetos de hotéis, mas podem falar sobre seus projetos residenciais?
CDT A Festen começou fazendo apartamentos, e depois hotéis, que são muito trabalhosos. Paramos de fazer residências por um tempo, porque não conseguíamos encaixar as equipes. Mas hoje é diferente. Estamos construindo uma magnífica casa geminada em Londres. Acabamos de começar uma linda casa em Nova York e também uma pequena fazenda tradicional em Lanzarote, equipada com energia solar.
L’O Que memórias vocês guardam de projetos passados, como os hotéis Le Pigalle, Les Roches Rouge e Rochechouart?
HS No Le Pigalle, foi a primeira vez que teríamos pessoas julgando nosso trabalho. Foi então que conhecemos Valéry Grégo, com quem realizamos alguns projetos brilhantes. Ele se tornou um amigo. Ele de fato nos instruiu sobre o setor hoteleiro. Foi a primeira vez que trabalhamos em equipe sem um diretor artístico. Com o Les Roches Rouges, a Festen deu início a uma virada internacional. O Rochechouart também foi uma grande aventura, um projeto bem grande, com mais de 100 quartos. Nós nos apaixonamos pelo edifício em art déco e sua brasserie, que permaneceu em seu estado original. Renovamos o lugar, dando aquela aparência nobre de hotel parisiense, e intensificamos aqueles aspectos ultrapassados. Não é um hotel da moda; é um hotel turístico, e pensamos muito nesse sentido, sem tentar fazer dele uma imitação do Moulin Rouge, ao mesmo tempo que respeitamos o bairro, Montmartre.
L’O Que espaço vocês gostariam de adicionar ao seu portfólio?
HS Um lugar ligado a viagens, como um trem, um velho navio ou um avião.