“Não Se Preocupe, Querida”: Entrevistamos o diretor de fotografia
Falamos com o diretor de fotografia Matthew Libatique, o braço direito de Olivia Wilde, a diretora do filme “Não Se Preocupe, Querida”
Por tratar de duas realidades diferentes, o filme “Não Se Preocupe, Querida” se destaca por usar diferentes elementos visuais para levar a trama. São as cores e a luminosidade de cada cena que dão indicativos ao público que algo não está perfeito no bairro Victory e o que parece ser apenas um filme de época é na verdade um suspense de ficção científica.
Estes aspectos visuais, são criação da área de Direção de Fotografia, um dos principais cargos no cinema. Além de ser quem literalmente está por trás das câmeras durante as gravações, é também a pessoa responsável pela iluminação de cada cena bem como a exposição do equipamento à luz. E, a revelação da película de filme - algo que em tempos pré-digitais era extremamente delicado e arriscado.
Olivia Wilde, a diretora do filme, pode contar com o renomado diretor de fotografia Matthew Libatique, como seu braço direito no projeto que leva em seu currículo grandes produções como Cisne Negro, Nasce uma Estrela e até mesmo dois dos filmes de Iron Man.
Matthew deu uma entrevista exclusiva para L’Officiel onde contou um pouco como foi o seu processo de criação e as filmagens de Não Se Preocupe, Querida. Veja a seguir:
Tentando não dar spoiler, quais foram os elementos chaves que você levou em consideração para ilustrar o que era necessário no filme?
Sempre o foco é o contraste entre o personagem e o cenário. (brinca) Criar este mundo idílico poderia facilmente ter ficado plástico. Essa foi a coisa mais importante realmente, criar esse naturalismo para que quando caímos no mundo de Victory, quando vemos este lugar pela primeira vez, não seja óbvio que é um filme sobre qualquer outra coisa além deste lugar.
Como você fez para atingir esta naturalidade? Porque de fato, tudo parece muito real quando assistimos.
Uma coisa que tentei abraçar é o conceito de imperfeição porque o mundo poderia ser tão perfeito. Uma técnica foi usar lentes e óticas que pudessem realmente aceitar a luz e depois rejeitá-la pelo flaring, aquela luz que às vezes era muito brilhante e não perfeitamente exposta. O personagem não existe apenas quando ele está com a luz no seu rosto. É como ser um estudante da existência cotidiana. Usamos uma locação externa em Palm Springs de modelo para entender como a luz jogava dentro da casa. Isso foi muito importante para mim como diretor de fotografia e para minha equipe, pois podíamos verificar como projetar isso. Queria que a luz fosse bonita, mas às vezes era dura ou forte demais. A luz do sol entra muito brilhante na casa e está sempre presente, a menos que seja um dia sem sol.
Há diversas grandes cenas com muitos atores, inclusive com a diretora do filme em cena. Como você, que está literalmente por trás das câmeras, trabalhou esses momentos?
Para ser honesto, busquei realmente criar espaço para esses artistas. Quando Olivia está em cena, ela está dirigindo a cena de dentro. Todos os seus artistas e elenco foram maravilhosos. Ela juntou Kate Berlant e Nick Kroll. Essas pessoas trabalham juntas como uma espécie de orquestra. Músicos passando um solo para o outro e encaixando as falas. Todo mundo sabia o seu lugar em cada cena e sempre sabiam onde estava a câmera, o que lhes dava a liberdade para se mover. É muito comum, no cinema, que os atores sejam dirigidos de forma rígida em função da luz. Nós queríamos fazer o oposto disso. Queríamos dizer: "Ok, bem, este é o seu espaço. Se você quiser tomar uma bebida no bar e voltar, vá em frente. Podemos seguí-lo ou não". Assim foi na primeira cena do filme em que todos estão festejando juntos, isso foi o que deu o tom para o filme inteiro.
E como foi a colaboração com a Olivia, considerando que este é o seu segundo longa-metragem?
Em qualquer relação com diretores, você deve entender qual é a visão deles. Esse é o começo de tudo. Eu já havia trabalhado com ela no curta que ela fez após Booksmart, seu primeiro longa, chamado Wake Up com a atriz Margaret Qualley (Série Maid da Netflix). Foi uma experiência muito bonita porque eu pude ver o seu senso de criatividade e abertura para as diferentes disciplinas do cinema como edição, música, design de produção e fotografia. Ela realmente aproveitou tudo que há disponível na orquestragem de cinema. Como já tínhamos trabalhado juntos, em “Não Se Preocupe, Querida”, era mais para entender como ela iria querer levar essa narrativa.
Os elementos visuais do filme realmente se destacam na produção como um todo. Como criar essa sintonia das disciplinas para este filme?
Olivia tem um senso de estética forte e seu estilo é que tudo deve estar em sintonia. Ela queria criar esse mundo ideal, mas ao mesmo tempo que fosse debochado e também sexy. E a câmera deve seguir essa linguagem. Quando eu comecei a trabalhar no filme, já havia muito design planejado. A casa já havia sido projetada, a paleta de cores definida. Então o meu papel era entender realmente o que a Olivia queria fazer visualmente e ajudá-la a contar essa história. Ela falava sobre a atmosfera e a vibração da performance que ela queria, mas também tinha muitas opiniões sobre a cinematografia e luz. E gosto de discussões que tem a ver com as outras disciplinas do filme, porque isso informa a maneira como eu vou fazer a minha parte.
Olivia foi bastante ousada na direção do filme, principalmente se pararmos para pensar que ela é uma nova diretora ainda. Como você vê o crescimento dela neste papel em um mercado que ainda é bastante masculino?
Eu acho que ela está a caminho de ser uma grande diretora, honestamente. Em termos de trabalhar com uma mulher, acho que certamente há uma perspectiva diferente. Há uma suavidade no lado feminino e há uma espécie de uma atitude mais direta na perspectiva masculina. Você olha para o filme, é uma história feminina. Pode não parecer necessariamente, mas a sensação que o filme dá é que é. Por isso, foi a diretora certa para o material certo. Acho que a razão pela qual o filme é bem sucedido visualmente é porque Olivia não se restringe apenas às qualidade femininas, ela também algumas tendências masculinas. Por isso, seu gosto pode agradar a todos.
Bastidor do filme - Fotos: Merrick Morton / Divulgação