Sebastião Salgado: uma homenagem à Amazônia
Três eventos em São Paulo homenageiam “Amazônia”, mega exposição de Sebastião Salgado que é um grito de alerta para a proteção do vasto território e de seu povo. Imperdível!
Sebastião Salgado fotografou alguns dos recônditos mais extraordinários da Terra e o ser humano em situações de guerra e em condições subhumanas de exploração. Mas é chegada a hora de o maior fotógrafo da contemporaneidade encerrar o capítulo dedicado a seus projetos grandiosos com a série “Amazônia”, uma ode à incomparável beleza do vasto território e à cultura de seu povo ameaçado. Foram sete anos para montar um quebra-cabeça para conceituar, organizar, conseguir patrocínio, ter o livro publicado pela editora alemã Taschen e, finalmente, montar a exposição itinerante “Sebastião Salgado: Amazônia”, em São Paulo, no Sesc Pompeia, até 7 de julho, que prossegue para capitais do norte ao sul do país, depois de passar por museus em Paris, Londres e Roma. O projeto grandioso foi criado por sua mulher e companheira de toda a vida, a arquiteta Lélia Wanick Salgado. Ela o acompanhou em várias das 48 expedições fotográficas por terra, água e ar a locais desconhecidos da Amazônia brasileira, com o apoio logístico de uma equipe de 40 profissionais, entre os quais piloto, cozinheiro, médico, assistente de campo e intérpretes das línguas indígenas. Salgado, que quase perdeu o joelho em uma ocasião e, em outra, a vista, não tem ideia de quantas fotos tirou para produzir a épica série em seu característico preto e branco e mil e uma nuances de cinza. As imagens registram paisagens de perder o fôlego e retratam 12 tribos indígenas da Amazônia profunda, entre elas, os Asháninka, os Yawanawá e os Zo’é. “Vou continuar a fotografar, claro, mas aos 78 anos já não posso mais mergulhar de cabeça em projetos dessa envergadura”, confessou na abertura no Sesc Pompeia.
Assinada por Lélia, a montagem no gigantesco salão expositivo é uma experiência sensorial com narrativa tríplice: fotografia, filme e música. Como na floresta, o espaço está envolto em penumbra entrecortada por 200 painéis fotográficos de paisagens e, aqui e ali pelos reflexos dos “igarapés” da arquitetura de Lina Bo Bardi, tudo embalado por sons amazônicos editados pelo músico francês Jean-Michel Jarre. Em meio a essa densa atmosfera visual e sonora três “ocas” exibem fotos do ser humano indígena em toda a sua formosura e força. As ocas também encerram o importante viés sociopolítico da empreitada de Salgado e Lélia na forma de sete curtas com entrevistas in situ com os chefes das comunidades indígenas feitas pelo jornalista Leão Serva, especialista no mundo amazônico. Outro delírio para olhos e ouvidos são as duas instalações imersivas, ambas com projeções de fotos. Em uma delas, paisagens majestosas acompanham poema sinfônico de nosso brasilianista mor, o modernista Heitor Villa-Lobos, admirado pelo casal. Na outra, retratos de famílias indígenas são acompanhados por sensível composição do paulista Rodolfo Stroeter, que casa os sons da floresta à voz celestial de Marlui Miranda, cantora e pesquisadora da cultura indígena.
Salgado aconselha de uma hora e meia a duas horas para percorrer toda a exposição que vem a ser um grito de alerta para a preservação deste bioma único e um pedido de proteção ao povo da floresta e à sua cultura. Paralelamente à mostra no Sesc Pompeia ainda há mais dois eventos em São Paulo homenageando a Amazônia captada por suas lentes.
Na avenida Paulista, o Itaú Cultural exibe até 8 de maio “Amazônia: o processo de criação de Sebastião Salgado”, que revela os bastidores do fotógrafo em plena ação registrando a antológica série. São 35 fotos de autoria de Lélia Salgado e de Leão Serva, complementadas por um videosdepoimento do fotógrafo, que registram desde suas andanças na floresta à sua ousadia ao fotografar de helicóptero e do alto de penhascos, como também revelam momentos de sua respeitosa integração com os indígenas.
Focado nos colecionadores e admiradores de Sebastião Salgado, o terceiro evento foi destinado ao mercado comercial, também intitulado “Amazônia”, e ficou em cartaz no Jardim Paulistano até 14 de maio, na Galeria Mario Cohen, a primeira especializada em fotografia na América Latina. O evento trouxe um recorte de 19 fotos da série exibida no Sesc Pompeia, todas assinadas e acompanhadas de certificado de autenticidade, para serem vendidas na galeria de Cohen, que há muitos anos representa a obra deste capixaba humanista, mestre da fotografia contemporânea. @SEBASTIAOSALGADOOFICIAL