Hommes

Antonio Saboia representará o Brasil no Oscar!

Em uma entrevista exclusiva, Antonio Saboia conta sobre as influências na sua carreira e fala acerca do novo filme que tem a oportunidade de disputar o Oscar

Antonio Saboia
Antonio Saboia

Depois de viver Julio na série “Rotas de Ódio”, Antonio Saboia volta a interpretar um policial no novo filme do diretor baiano Ary Muritiba. Em “Deserto Particular”, Daniel (Saboia) está em um momento de crise e se envolve em um relacionamento a distância com Sara. Depois que ela deixa de responder suas mensagens, desesperado e buscando uma resposta, Daniel viaja até o sertão baiano atrás da mulher com quem sentiu uma forte conexão e ficou completamente apaixonado.

Saboia viajou para a Itália junto com Muritiba para o lançamento do filme no Festival de Cinema de Veneza, conquistando o Prêmio do Público na mostra Venice Days. O longa também foi selecionado pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais para representar o Brasil no Oscar de 2022. Em uma entrevista exclusiva, Antonio contou para nosso escritor colaborador, Igor Bonfim, um pouco sobre sua carreira e o novo filme.

Antonio Saboia

IGOR BONFIM: Sua trajetória atravessa vários países entre França, Brasil e seu período de estudo na Inglaterra. Como essas passagens influenciam no seu trabalho?

ANTONIO SABOIA: Na hora de abordar uma personagem, o que se pede de qualquer ator é de manter a mente aberta e cultivar um certo grau de empatia para transitar por um universo desconhecido e buscar formas de entender o que pode não estar ao seu alcance. Então foi muita sorte ter uma formação cosmopolita e uma família que transitavam entre culturas e realidades sociais diferentes. Meu pai era jornalista brasileiro, minha mãe professora franco-espanhola, meus amigos na escola pública francesa ou nos meus anos de formação inglesa eram europeus, africanos, árabes, asiáticos, judeus, cristãos, muçulmanos, ateus, pobres, ricos, classe média...Acho que crescer com essa diversidade cultural e social me obrigou desde cedo a enxergar o que havia de universal no trato das emoções humanas. E nisso tive a sorte de ganhar uma vivência que hoje serve como instrumento para construir personagens e desconstruir preconceitos. 

Antonio Saboia

IGOR BONFIM: Em seu lançamento, “Deserto Particular” conquistou o Prêmio do Público no 78° Festival de Veneza. Como é ter esse reconhecimento pelo projeto?

ANTONIO SABOIA: Ficamos muito felizes com a seleção e a acolhida do filme em Veneza. Espero que Deserto seja recebido com o mesmo carinho em casa.  É um filme que carrega uma mensagem universal de esperança e que dialoga diretamente com esse momento tenebroso pelo qual o Brasil está passando.

IGOR BONFIM: Muitos filmes adiaram seu lançamento por conta da pandemia, isso também aconteceu com o longa? Como foi isso para vocês da produção?

ANTONIO SABOIA: O filme não sofreu tanto por conta desses atrasos. Ele passou pelo processo normal de pós-produção, lançamento em festivais e deve estrear em um momento de reabertura dos cinemas. As coisas tendem a acontecer quando elas devem e acredito que o filme vai chegar no momento certo nas telas brasileiras. 

Antonio Saboia

IGOR BONFIM: Você já havia filmado “Bacurau” no interior do Rio Grande do Norte e agora gravou o novo filme no interior da Bahia. Como é gravar nas pequenas cidades do interior do país?

ANTONIO SABOIA: Eu fui três vezes a Parelhas (cidade onde ficamos hospedados durante as gravações de Bacurau) somando menos de 3 semanas ao todo. Era uma equipe bem grande e unida e por conta das variações climáticas inesperadas o plano de filmagem mudava com frequência, então acabamos passando mais tempo no set em stand by. Acabou sendo uma experiência de trocas mais do que uma exploração do local. Em contrapartida, por conta do “Deserto Particular”, passei quase 2 meses entre Juazeiro e Petrolina e desenvolvi quase que de maneira instantânea um sentimento enorme de carinho pelo lugar. Não queria mais sair de lá. O clima, as pessoas, o ritmo e a dinâmica de vida são outros. O rio São Francisco que separa as duas cidades carrega uma força extraordinária e para quem é espiritualmente ligado a essas coisas isso se torna uma evidência e uma fonte de energia incrível. Espero voltar em breve para apresentar o filme lá.

Antonio Saboia

IGOR BONFIM: No filme, seu personagem tem envolvimento com uma mulher por aplicativo. Quais os pontos positivos e negativos que você enxerga nessas relações à distância?

ANTONIO SABOIA: Já tive relacionamentos a distância e dependendo do seu momento e da sua maturidade pode ser complicado tocar uma história assim. A vida pode se tornar uma grande saudade do outro, cheia de idealizações, projeções e inseguranças e te roubar totalmente do teu momento presente. Mas pode ser também uma oportunidade de amadurecimento e fortalecimento do casal. Se aprendi alguma coisa com essas experiências é a importância de ter seu espaço e seus momentos de solitude ou resguardo para compartilhar melhor seu caminho de vida com outra pessoa.



Antonio Saboia
Antonio Saboia

IGOR BONFIM: O Daniel, papel que interpreta no filme, embarca em uma aventura atrás de uma paixão. Qual a maior aventura que você já viveu por uma paixão?

ANTONIO SABOIA: Já mudei de país por conta de paixão. Eu morava na Inglaterra, ela no Brasil. Assim que terminei a faculdade, vendi minha moto, meu violão (de colecionador, risos) e comprei uma passagem para o Brasil. Foi assim que voltei a morar por essas bandas e graças a isso consolidar uma carreira no Brasil. Hoje ela é uma das minhas melhores amigas, casou com um cara incrível e acabou de ter um bebê lindo. A vida sempre dá um jeito de te colocar onde você deve estar e a paixão amorosa é sem dúvida um dos seus maiores motores.

IGOR BONFIM: Se você pudesse dar um conselho ao seu personagem Daniel, qual daria?

ANTONIO SABOIA: Continue abrindo essa mente e, pelo amor de Deus, vote contra Bolsonaro em 2022.

IGOR BONFIM: Qual foi a  sensação quando soube que o filme seria representante do Brasil no Oscar? 

ANTONIO SABOIA: Eu estava na correria no meio da rua entre um encontro e outro quando recebi a notícia. Não esperava por essa e não esperava que o resultado fosse sair tão cedo. Obviamente fiquei muito feliz, ao ponto de me perder nas ruas e não saber mais pra onde eu tinha que ir (risos), eu estava meio embriagado com a notícia. Espero que isso estimule mais ainda as pessoas a irem ver o filme nos cinemas. 



Antonio Saboia

IGOR BONFIM: Como estão suas expectativas e da equipe para a corrida na categoria de Melhor Filme Internacional?

ANTONIO SABOIA: Tem um chão e muito trabalho ainda antes do resultado da academia americana sair, a decisão deles vai depender de vários fatores artísticos políticos e claro da qualidade dos filmes que vão receber. Nosso filme dialoga diretamente com esse momento que vivemos no Brasil e a necessidade de um respiro no meio desse caos todo. Não crio expectativas porque acredito que se as coisas tiverem que acontecer elas acontecem, mas estou positivo com tudo isso e curtindo essa notícia.



IGOR BONFIM: Para dar um gostinho ao público, como você descreveria “Deserto Particular”?

ANTONIO SABOIA: "Deserto" é um respiro e um filme necessário sobre o que é "escutar o outro" num momento ensurdecedor do Brasil. Quer respirar e sair dessa barulheira ? Corre pro cinema ver o filme! (risos)



Antonio Saboia
Antonio Saboia
Antonio Saboia
Antonio Saboia

Tags

Posts recomendados