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Mônica Salgado em entrevista exclusiva para a L'Officiel

Do outro lado! Mônica Salgado fala sobre as suas transformações de carreira e a vida 24 horas online. Confira!

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Capa e camisa GLORIA COELHO, joias TURETA. (Fotos: Bruna Lucena)

Mônica Salgado — ou Moni, para os não tão íntimos — foi uma das primeiras editoras de moda brasileiras a saber evoluir com sucesso do seu papel das redações para o próprio show como influencer. Cinco anos depois, posando de cara (quase) lavada pela primeira vez como personagem de capa, ela fala sobre as suas transformações de carreira e a vida 24 horas online.

Jaqueta, top e pantalona MOB, joias TURETA.

Vem cá, Moni é seu apelido desde sempre? Pensei aqui que não é exatamente uma abreviação paulistana.
Nada paulistana! A gente sabe que a galera de São Paulo gosta de chamar por uma sílaba só, né? Na verdade, sempre foi Mô, para meus amigos, para o meu marido, ainda é assim. Na minha família, meus pais, me chamam de Mu, nem sei o porquê. Moni veio das redações, é um apelido profissional que acabou ficando. Talvez não seja uma coisa tão íntima, tão invasiva, como Mô. Mas é simpático, dá para desconstruir, virei Moni para sempre.

Esta é sua primeira vez como garota da capa, como foi essa sensação?
Sim, primeira capa da vida. Já fiz outras, de revistas que não tinham circulação nacional. Esta é a primeira com C maiúsculo, então tem um sabor especial. É muito engraçado se ver do outro lado, sobretudo porque você precisa perder o controle do processo. Eu sempre estive dando as cartas de como deveria ser o shooting, o que deveríamos extrair da pessoa. Nos últimos anos, desde que saí desse mercado, trabalhando como influencer, tenho total controle da minha imagem. As selfies são o clique e o ângulo exatos, o momento que a gente gosta. Mesmo quando chamamos um profissional para fazer uma publi, passa tudo pelo nosso crivo.

É um universo de segurança.
Totalmente! Posar para uma capa foi um exercício de desapego. Começou logo quando recebi o moodboard, com "cara lavada" e cabelo preso... precisei digerir essa informação. Não vou mentir que tinha um pouco de medo da "cara lavada", não é a imagem que estou acostumada. Mas é um exercício interessante, de me ver por outro ângulo. E, no meu caso, passa um filme na cabeça, né? Estar ali no meio de uma equipe, abrir mão do processo e confiar, é no mínimo muito curioso. Foi mais tranquilo do que eu imaginava. É raro terminar um trabalho com essa sensação de “quero celebrar”. Tanto que depois fui para o bar do hotel sozinha! Pedi o meu Cosmopolitan e fiquei ali, celebrando a vida comigo mesma.

Você faz um milhão de coisas atualmente, nessa carreira solo, e é de uma época profissional que as pessoas tinham um título só. Como se classifica, hoje em dia?
Apesar de tudo o que faço, sigo sendo jornalista. Quando a gente sai do mercado formal, como fiz em 2017, há uma crise de identidade séria, é difícil escapar. Você passa tanto tempo se preparando para chegar ao ápice e, quando sai, tem um baque ao se ver por conta própria. Então esse escudo do “Mônica jornalista” acaba sendo meu conforto, minha certeza. São tão poucas certezas ao trabalhar como criadora de conteúdo, as regras mudam toda hora. Ser jornalista me dá um lastro. Sigo contando histórias, fazendo uma curadoria de assuntos para quem se interessa em me seguir. Tanto que, na minha bio do Instagram, escrevi “eu conto histórias” — foi o jeito mais fiel que achei de dizer o que eu faço.

Nesses cinco anos como influencer, o que veio primeiro — a reconstrução ou a desconstrução?
Penso que tudo aconteceu meio paralelamente, enquanto ainda estava no ambiente de redação. O mercado estava em franca mudança, eu já entendia que a imprensa escrita não tinha mais o mesmo peso. Sentia a necessidade de abrir meu leque, vontade de experimentar outras coisas. Então essa construção, reconstrução e desconstrução, tudo aconteceu ao mesmo tempo.

Havia um planejamento a longo prazo?
Olha, eu sou libra com aquário, ar com ar. Então não planejo nada, vou vivendo e pegando uma coisa aqui, outra ali e mudando de ideia no caminho. Tenho mil ideias o tempo todo, mas sou pouco realizadora. Tudo acontece na minha cabeça e às vezes me satisfaço ali. O meu desafio maior, na vida profissional, ainda é ir até o fim nos meus planos.

Blazer smoking e camisa VITOR ZERBINATO, joias TURETA.

Como foi esse processo de quarentena pra você?
Acho que foi um período de intensa renovação. Tenho uma família pequena, então houve esse momento de conexão profunda com a casa, com a rotina das minhas cachorras, do meu filho. Eu nunca participei tão ativamente dos estudos dele. Todos criamos laços muito positivos. E foi um período de intensa produção intelectual, fiz muitas lives com pessoas interessantes, não parei de produzir.

Falou-se muito que todos sairíamos melhores da pandemia. Isso aconteceu com você, é uma pessoa mais evoluída?
Não acho que a pandemia me balançou muito, pois eu já sou naturalmente caótica no modo de pensar. Mas realmente não acho que a pandemia contribuiu para deixar as pessoas melhores. Essa epifania aconteceu muito mais num campo de vontade do que gostaríamos que fosse. O mundo segue muito intolerante, as pessoas estão de saco cheio, continuam grosseiras. Infelizmente, essa evolução coletiva não aconteceu. Tão logo retomamos as atividades, o mundo voltou rapidinho a ser o que era.

Você passa a impressão de que está 24 horas conectada. Desliga em algum momento?
É difícil desligar, viu? É um exercício que eu deveria fazer. Quem trabalha comigo, sabe que estou sempre na ativa. Acho que há também uma piração de mercado, que passa por uma insegurança de estar disponível o tempo todo. E tem o lado da minha natureza: gosto de tirar as coisas da frente, sou ágil nas minhas decisões, sempre fui. Não gosto de deixar as pessoas sem resposta. Desligo só para dormir, mas a primeira coisa que faço ao acordar é checar o WhatsApp. Não me orgulho, mas é um fato!

Mas você consegue separar o storytelling das mídias sociais da vida real, de alguma maneira?
Nunca consegui, acho dificílimo. Sobretudo agora, que não tenho uma redação para diferenciar a vida pessoal da profissional, sinto que sou uma coisa só. Mesmo quando estou de férias, de alguma forma estou gerando conteúdo ou pagando alguma permuta. É difícil o momento em que falo “agora vou me entregar 100% e viver”. Até em viagens pessoais, que nada têm a ver com trabalho. No meio da pandemia, por exemplo, visitamos o Egito, que era um sonho antigo. Queria tanto con- tar para as pessoas o que estava vendo, era impossível relaxar. O trâmite de mostrar tudo em tempo real é prazeroso, não é um peso. Não quero romantizar, mandar o clichê do “trabalhe com o que você ama que nunca vai trabalhar na vida”. Sou totalmente contra essa ideia. Mas contar histórias resvala no prazer, para mim — e aí perde-se um pouco o limite.

Não acha que há um risco de parar de viver para si e viver para contar essas histórias?
Tem, e muito. Claro que estou falando de um jeito bonito, mas as redes sociais são uma máquina de alimentar isso na gente. É um mecanismo viciante. A partir do momento que a primeira pessoa comenta “quero saber tudo”, já encarno a Mônica jornalista, a Mônica que não quer decepcionar ninguém... e vou contar do melhor jeito, com riqueza de detalhes.

Você assinou uma coleção de roupas. O que mais está nos planos?
Fiz agora essa collab com a MOB. É algo muito importante para mim, não só por ser uma marca com trajetória sólida e que respeito, mas é um gancho que faço com o mundo da moda. É de onde vim, onde construí minha história, e que andava um pouco esquecida. Gosto quando consigo abraçar um trabalho que me leve para esses primórdios e me lembre o quanto amo a moda. Em paralelo, trabalho na segunda edição do Talk com Moni, que aconteceu em 2019 e estamos fechando a segunda edição para agosto. É um evento de carreira para discutir mercado, falar sobre como você pode se tornar um profissional melhor para o futuro, não importa em que área atue. Outra coisa é um documentário sobre as semanas de moda internacionais, contando os behind the scenes pelos olhares de várias pessoas. É um conteúdo que, do jeito que queremos fazer, ainda não existe. Gosto de tocar projetos grandes, me dá um ânimo especial. Adoro fazer publis, claro, respeito muito os meus parceiros. Mas quando vejo que estou tocando algo maior, que envolve tanta gente, tenho esse prazer de fazer tudo acontecer.

Com esse tanto de holofote de influencer, você já se sentiu uma celebridade?
Nunca me senti, jamais. Lembro que quando fiz Vídeo Show, em 2017, havia um jargão interno na Globo de chamar os contratados de “talentos” — e eu pensava, mas que jeito mais sui generis de chamar alguém. Me incomodava um pouco, pois sempre vivi muito nos bastidores. Ali foi uma mudança de paradigma, pois as pessoas não vinham mais falar comigo por algo que fiz nas revistas, pelo que escrevi. Encontrava pessoas no supermercado, um público que até então não atingia, e elas me acessavam como a pessoa que está na televisão na hora do almoço. Isso me deixava um pouco desconfortável, não é por isso que quero ser conhecida. Hoje, gosto muito de quem vem falar dos meus vídeos. Ano passado, me pararam na praia para contar que um deles foi muito especial, alguém que tinha acabado de se separar, nos abraçamos e choramos juntas. Isso é o que mais me dá tesão: quando tenho retorno por alguma pensata, alguma reflexão que as pessoas viram no Instagram e tocou de uma maneira particular, sabe? Aí sim, é algo que me deixa confortável e tudo passa a fazer sentido na minha cabeça.

Blazer smoking e camisa VITOR ZERBINATO e joias TURETA.
Capa e camisa GLORIA COELHO, sandália VALENTINO, joias TURETA.
Casaco, body e saia MOB e joias TURETA.
Vestido KALINA BOURGEOIS.
Blazer e calça LINZZI, camisa LABOISSIERE.
Jaqueta e top KALINA BOURGEOIS, bermuda GLORIA COELHO, joias TURETA.
Full look GIORGIO ARMANI, joias TURETA.
Blazer MOB, joias TURETA.

Créditos

FOTOS: Bruna Lucena.
DIREÇÃO DE MODA: Alexandra von Bismarck.
STYLING E PRODUÇÃO DE MODA: Cinthia Arnoni.
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Ana Luiza Neves.
PERSONAGEM: Mônica Salgado.
ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA: Fernando Lima e Laura Guimarães.
BELEZA: Kaká Oliveira.
ASSISTENTE DE BELEZA: Beatriz Cardozzo.
NAILS: Sonia Lima.
RETOUCH: Marcos Nascimento e Jessica Oliveira.
AGRADECIMENTOS: JW MARRIOTT HOTEL SAO PAULO, SHOPPING PARQUE DA CIDADE e SALE & PEPE CUCINA ITALIANA

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