A natureza é a mãe do mundo: conheça Ruanda!
Feita da essência, da natureza e da audácia, Ruanda é uma nação que aprendeu a se refazer diariamente, cuidando de sua casa e de sua gente
Em busca de natureza selvagem, logo que desembarcamos na capital de Ruanda, Kigali, reservamos um dia para conhecer essa metrópole e seus endereços culturais, caso do Kigali Genocide Memorial, onde se encontram exposições, depoimentos dos sobreviventes e outros recursos do acervo que propõem reflexões a respeito de um episódio que marcou o país - em 1994, um genocídio em Ruanda causou a morte de mais de 800 mil pessoas, um conflito impulsionado pelas etnias locais Tutsis e Hutus, com forte presença de nações internacionais. Estivemos ainda no Parlamento e seguimos ao encontro das paisagens das montanhas Virunga, uma cordilheira de 450 quilômetros quadrados que se estende pelos limites da República Democrática do Congo, de Uganda e de Ruanda. Nela estão oito vulcões, seis deles extintos e os outros dois, Nyiragongo e Nyamulagira, ativos. As florestas que cobrem esses maciços abrigam 1.032 gorilas em parques nacionais. No caminho para o Bisate, passamos pelo Dian Fossey Gorilla Fund International, combinação de museu e de escola que recebe o apoio de celebridades, a exemplo da apresentadora norte-americana Ellen DeGeneres, e garante o desenvolvimento e a ampliação de sua estrutura. Inspirada pelos estudos com chimpanzés, conduzidos pela primatóloga britânica Jane Goodall, com quem chegou a conversar antes de iniciar o seu trabalho, Fossey realizou uma das pesquisas de campo mais importantes para a conservação dos gorilas na África. A maior parte deles vive no Parque Nacional dos Vulcões, protegidos por regras rígidas de visitação e pelos trekkers, ex-caçadores capacitado para orientar os turistas e monitorar as mais de 12 famílias desses animais que estão habituados ao convívio humano. Na manhà seguinte, o passeio pelas comunidades próximas ao hotel trouxe de volta a sensação que tivemos ao sair do aeroporto. Enquanto nossos sentidos registravam cada detalhe no colorido das roupas das pessoas, nas texturas do artesanato comercializado nas barracas do entorno e no aroma temperado da comida preparada por lá, as crianças nos acompanhavam com um vozerio animado. A atmosfera calorosa era vista igualmente no Bisate Lodge, marcado pelo atendimento oferecido por seu staff numeri camente robusto com 9,5 funcionários por hóspede - todos comandados por uma mulher, importante dizer.
Desde o início, em 2017, o complexo preserva as bases adotadas na reconstrução do país e promove o empoderamento feminino por meio de modelos sustentáveis de negócios que movimentam a economia local. Com a madrugada escondida pela névoa densa que se depositava sobre essa terra das mil colinas, o visual das seis acomodações do Bisate, chamadas de Forest Villas, remeteu a gigantescos ninhos de pássaros com suas longas fibras de palha. Na verdade, a base conceitual para a construção das habitações partiu do antigo palácio onde viveu a família real de Ruanda, no distrito de Nyanza. O Bisate Lodge abriu suas portas com a proposta de levar mais oportunidade para Ruanda, uma visão pioneira de reflorestamento e parceria das comunidades. Bisate tem uma localização privilegiada no Parque Nacional dos Vulcões, em um anfiteatro natural com vistas dramáticas dos picos dos vulcões Bisoke e Karisimbi, que se erguem na floresta.
O grande encontro
Já durante a aventura propriamente dita, depois de subir até praticamente o topo da montanha, temos a emoção de encontrar a família de gorilas que nos foi indicada a conhecer. Eles têm 98% do nosso DNA e estar ao lado deles é algo fascinante. Um sentimento difícil de explicar é estar ali, quieta, observando e admirando a sua relação familiar. Tudo é tão pleno, uma harmonia perfeita. Eles ficam tranquilos, porém impõem respeito. Estar ali no meio deles é uma festa para os sentidos e um descanso para a razão. Um detalhe que vale a pena destacar é que uma vez locali- zados, os primatas se movimentam e aqueles que estavam no alto da montanha podem descer e antecipar o encontro, frustrando os mais ansiosos pela aventura. O contrário, claro, acontece e não há opção senão seguir morro acima munido de fôlego. Os movimentos precisam ser delicados quando encontramos os gorilas. Falar baixo sempre, nunca encarar o macho dominante e manter proximidade com o guia são algumas das regras que têm que ser respeitadas. Do momento que os avistamos temos somente uma hora com eles, para não interferirmos na rotina dos animais. Os minutos então passam como segundos. O macho dominante, chamado "Silverback" (ao atingir 12 anos, adquirem uma cor cinza nas costas), está sempre atento, observando todos com um olhar firme e sério, alerta e pronto para proteger seu grupo. Quando ele se movimenta, a terra treme. Tranquilas e protegidas, as mães alimentam despreocupadamente seus filhotes enquanto outros adolescentes se divertem, muitas vezes até se aproximando de nós. No início, a dúvida entre fotografar e só observar era gigante, mas com o passar dos minutos, magicamente a re- lação entre nós se estreita. Sem perceber, todos abaixam as câmeras e os celulares. Temos a impressão de que o tempo para de uma hora para a outra e uma mágica conexão se estabelece, olhos nos olhos. O grupo todo se torna um só numa impressionante sintonia, os laços são mais fortes do que imaginávamos. Depois de toda a transformadora experiência, fica ainda mais difícil aceitar e acreditar que estes animais tão dóceis e carinhosos muitas vezes ainda são alvos de caçadores impiedosos que contrabandeiam cabeças e mãos dos gigantes gentis. Guardião de uma fauna diversa, o Parque Nacional dos Vulcões recebe ainda os "golden monkeys" como é chamada essa espécie de macacos que possui a pelagem dourada. Esse é outro passeio que vale a pena fazer: observá-los pulando de galho em galho entre nós é divertidíssimo. Além disso, ainda há trekkings até os lagos de Ruhondo e Bureza, visitas à caverna Musanze e ao túmulo de Diane Fossey, todos organizados também pela equipe do Bisate. Ruanda não tem apenas os gorilas como atrativos turísticos. Suas lindas montanhas e vulcões adormecidos colorem o cenário do país. Passear pelo entorno também é maravilhoso.
Sustentável
A Wilderness Safaris, a maior empresa de turismo de conservação do mundo e promotora dos principais roteiros de Ruanda, acredita que a única e mais importante conquista até hoje é construir um modelo sustentável de negócio que não comprometa o ambiente e que ainda ofereça emprego, treinamento, ferramentas, carreiras, novos horizontes, esperança e alternativa real de desenvolvimento sustentável à sociedade. Cada um de seus lodges busca o menor impacto possível no entorno e oferece um serviço personalizado, indo ao encontro da expectativa individual de cada hóspede. Eles se dedicam a conservar e restaurar a vida selvagem da África e usam o ecoturismo como ponto de partida para isso. Um modelo de negócio responsável e sustentável que muda a perspectiva das pessoas no planeta e inspira aqueles que estão expostos a ele a realizar mudanças positivas em suas próprias vidas. Viajar em locais remotos e tendo encontro com animais selvagens e ótimo, mas precisa ser feito com responsabilidade ambiental e social.