A carreira e mente criativa da arquiteta Juliana Vasconcellos
A arquiteta Juliana Vasconcellos carrega seu histórico como modelo e amante da moda para o design de seus mobiliários reconhecidos ao redor do mundo
Transitando pela arquitetura, pelo design e pela moda, a mineira Juliana Vasconcellos iniciou sua carreira como arquiteta, mas logo migrou para o universo do design de interiores e de móveis. Reconhecida internacionalmente por seu mobiliário identitário, com traços femininos e orgânicos, hoje ela é considerada um dos 101 nomes da arquitetura, design de interiores e paisagismo do ano em todo o mundo, segundo a revista americana Elle Decor.
Juliana já foi modelo e chegou a estudar moda em Barcelona. Mesmo depois de tantos anos, ela conta que ainda sente vontade de fazer a própria coleção, apesar de nunca ter executado o lado criativo por meio das roupas. “Quando eu era criança, falava que ia ser artista ou pintora. Na adolescência, tinha certeza absoluta que seria estilista. Não sei como acabei indo para o curso de arquitetura.”
Com uma relação estreita com a arte contemporânea e a música clássica – Juliana toca piano há muitos anos e cogitou também seguir a profissão de musicista –, ela traz inspirações de várias artes com um toque de delicadeza para suas obras e criações. “Amo roupas com volumetria, por exemplo, e isso tem tudo a ver com a arquitetura e com os meus móveis. Muitas vezes opto também por esse trabalho com texturas e combinações de cores”, diz.
Dona de um closet com peças únicas e atemporais, Juliana traz a moda como ferramenta de leitura do mundo contemporâneo e acredita que, por meio dela, é possível notar os primeiros reflexos da mudança na sociedade. “Todas as questões políticas e socioculturais primeiro aparecem nas ruas e nas roupas. Eu amo essa forma de expressão e de contextualização do que a gente vive. O mundo está mudando e conseguimos enxergar isso diretamente na moda. Com a ajuda dela, lemos as pessoas.” O senso estético da artista se estende desde as obras até as roupas, sempre com foco nos acessórios impactantes.
“Não sou adepta da última moda. Eu tenho um estilo que muda muito em relação ao dia e à fase da minha vida. Nos últimos dois anos, até mesmo um ano antes da pandemia, comecei a procurar por peças mais fáceis e confortáveis, acredito que pelo meu estilo de vida. Não estava me ‘montando’ mais. Sou prática, mas gosto do diferente, sempre. Na pandemia, virei adepta da camiseta básica e calça jeans, mas sou apaixonada por óculos, casacos e blazers. Então posso estar com uma roupa básica, mas sempre visto uma jaqueta diferente ou um acessório que tenha informação de moda, que eu só coloco por cima e resolve o meu look.”
A decoração de sua casa, em Belo Horizonte, que é branca e tende ao minimalismo, foi feita ao longo de 13 anos, com mobiliário moderno brasileiro, entre peças da própria designer, poltronas de Joaquim Tenreiro e obras de Lina Bo Bardi, arquiteta responsável por projetos como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), fundado em 1947. “Casa de ferreiro, espeto de pau. Tudo foi feito muito devagar. Não cheguei em um dia querendo decorar, foi gradativo. A sensação é de que não está pronta, mas o que está lá tem muita importância para mim e para o meu marido, que prefere esse estilo com menos informações”, disse a arquiteta.
"Posso estar com uma roupa básica, mas sempre visto uma jaqueta diferente ou um acessório que tenha informação de moda, que eu só coloco por cima e resolve o meu look" Juliana Vasconcellos
Entre as obras, Juliana trouxe para sua casa a poltrona Galho, criada por ela mesma no ano passado e que se tornou sua principal peça de trabalho hoje. O mobiliário estava em exposição na casa de leilões Phillips, nos Hamptons, em Nova York, até o início de setembro. Inspirada em galhos retirados diretamente do cerrado, a peça foi feita de bronze fundido e passou por um processo de execução longo e detalhado. “Foi um trabalho criativo muito livre e visceral, porque quis pegar algo literal da natureza com sensação de bruto, sem lapidação e rústico, para que a peça ficasse bem orgânica.”
Em meio às paredes que exalam cultura, Juliana elegeu dois espaços preferidos dentro de casa: o escritório, palco de uma mesa do arquiteto e designer Jorge Zalszupin, e o vão da escada, que traz ritmo para a entrada de luz. “A arte dentro de um espaço residencial é uma forma de contextualizar a época que aquela casa está sendo vivida, inspirar questionamentos, tanto internos e pessoais quanto externos, como o contexto político, social ou da própria vivência do artista. A obra de arte enriquece o espaço, traz diálogo, conhecimento e cultura.”
Além da obra Galho, Juliana criou a icônica cadeira Girafa – inspirada na feminilidade e elegância do animal –, que foi adquirida pelo acervo permanente do Museu de Artes e Design de Nova York e hoje está em uma exposição do acervo com outras 70 obras, representando o crafted (artesanal), até fevereiro do ano que vem. A peça proporcionou a presença da arquiteta em todos os continentes. “A Girafa é vendida na Rússia, em Hong Kong, em Nova York, em Los Angeles, na Coreia, na Nova Zelândia e em toda a Europa. Hoje exporto mais do que vendo no Brasil, mas isso reforçou – junto com o meu amadurecimento dos últimos anos – a ideia de trabalhar uma linguagem de raiz e de valorizar a minha cultura. E isso fez crescer a minha presença internacional. Parece contraditório, mas foi um amadurecimento da minha imagem trazer essa raíz cada vez mais forte.”
No último ano, com a pandemia, a artista acabou adiando os planos de celebrar os 15 anos de carreira com uma exposição de retrospectiva de todos os projetos que produziu nesse período, mas o plano se mantém para o ano que vem. “É uma carreira breve. Sinto que estou começando, mas quero contar a minha história e enxergar a evolução profissional ao longo do tempo.” Durante o período de isolamento, Juliana – que já era mais tranquila, segundo a mesma – passou por uma fase de impulsos criativos mais profundos, apesar da insegurança por conta do momento. “Tive mais tempo para me conectar e buscar um equilíbrio interno, e o lado criativo apareceu com mais substância. Voltamos a olhar para coisas que tinham mais valor, até nas relações, com a diminuição do contato social, e priorizamos relações mais importantes. Não vivemos nada supérfluo nos últimos tempos”, finalizou.
"A arte dentro de um espaço residencial é uma forma de contextualizar a época que aquela casa está sendo vivida" Juliana Vasconcellos