Hommes

Andreas Kisser, do Sepultura, em entrevista exclusiva para a L'Officiel

O fim é um novo (re)começo! O ano de 1984 foi, no mínimo, libertário. Do surgimento do Macintosh às passeatas pró-democracia, o movimento do heavy metal nacional escutava os primeiros acordes do Sepultura.

t-shirt groupshot person people pants photography portrait adult male man
Foto: Edu Defferrari/Divulgação

Em 25 de janeiro de 1984, o Brasil acordou com o grito pelas Diretas Já! Ninguém mais aguentava a repressão – e, na medida em que os ecos avançavam pelo país, mais e mais pessoas soltavam as vozes. Foi neste mesmo ano que surgiu o Sepultura. O grupo, de origem mineira, idealizado por Max e Igor Cavalera, tinha influências do Black Sabbath, Van Halen, Motörhead (cuja música “Dancing on your Grave” serviu de inspiração para batizar o conjunto), Judas Priest e Iron Maiden. Mas bastaram algumas viagens até São Paulo, onde eles eram habitués da Woodstock Discos, para que o som mais pesado e acelerado do Venom, Megadeth, Celtic Frost, Exodus e Kreator, além dos compatriotas Dorsal Atlântica, Sagrado Inferno e Stress entrasse pra valer em suas setlists.


Além dos irmãos Cavalera, a banda contava em sua formação original com Paulo Jr. e Wagner Lamounier, que saiu tempos depois para fundar o Sarcófago. Em seu lugar, Max assumiu o vocal e trouxe Jairo Guedez para compor na guitarra. A estreia oficial rolou num festival em Belo Horizonte, em 1985, e chamou a atenção do selo independente Cogumelo Records, que produziu o EP “Bestial Devastation”. Dois anos depois, Jairo deixou o quarteto e foi substituído pelo paulista Andreas Kisser. Com roupagem mais profissional, o Sepultura entrou em estúdio para gravar “Morbid Vision”, em 1986. Ali consolidava-se o hit “Troops of Doom”, que rapidamente caiu nas graças dos metaleiros, e o estilo death metal como vertente do heavy metal. O sucesso, ainda que restrito ao circuito alternativo, os fez mudar para São Paulo. Em menos de um ano no endereço novo,
eles colocaram para rodar o álbum “Schizophrenia”, ainda sob a chancela da Cogumelo. O lançamento bombou na Europa e nos Estados Unidos, e deu o empurrãozinho que faltava para que a trupe assinasse um contrato de peso com a Roadrunner Records. Veio o terceiro disco, “Beneath the Remains” (1989), que teve a curadoria do produtor musical Scott Burns e a chance de viver em solo ianque, mais precisamente em Phoenix, no Arizona. Pronto, o Sepultura aconteceu para o universo. As turnês pipocavam, os shows reuniam multidões na Grécia, no Japão, na Indonésia, na Austrália, na Holanda e na Espanha, e as canções viravam verdadeiros hinos. Então veio o convite para tocar no Rock in Rio II, para uma plateia de 100 mil pessoas e, na sequência, eles deram vida ao “Arise” (1991) e “Chaos A.D.” (1993), que consolidaram a batida pauleira do Sepultura, que mistura death metal e thrash metal, além de elementos das culturas indígena, africana e oriental.

Quando tudo parecia bem, uma forte turbulência chacoalhou os confins do metal, que sentiu o baque com a saída de Max Cavalera, em 1996. Até o norte-americano Derrick Green juntar-se ao grupo, em 1998, o Sepultura manteve-se como um trio. Ao longo destes 40 anos de trajetória, eles fizeram 15 discos, quatro coletâneas, cinco EP’s e três álbuns ao vivo, vendendo cerca de 50 milhões de cópias e tornando-se referência nos segmentos do groove metal (post-thrash) e do neo-metal. Este ano, o baterista Greyson Nekrutman juntou-se ao staff para ocupar o lugar deixado por Eloy Casagrande. Na despedida do conjunto, que está em turnê global por 40 países, falamos com Andreas Kisser.

Fotos: Bruno Zuppone e Saul Carvalho/Divulgação

L’OFFICIEL HOMMES: O documentário “Ruído das Minas”, dirigido por Filipe Sartoreto, narra o surgimento das primeiras bandas de metal nacional, como Holocausto, Chakal, Kamikaze e Sepultura. Gostaria que você nos contasse, dentro deste panorama, como foi a criação do grupo?
ANDREAS KISSER: Apesar de não ser de Belo Horizonte – sou de São Paulo e entrei no Sepultura em 1987 –, eu conheço toda essa história e os seus personagens. A cena de ‘BH’ é especial e isso se deve muito à loja Cogumelo, que se aventurou a ser um selo independente e possibilitou que grupos sem tanta estrutura gravassem seus EP’s. Foi assim que o Sepultura e o Overdose entraram em estúdio, uma banda de cada lado para minimizar os custos. O pessoal do Sepultura era tão novo que nem sabia afinar os instrumentos. Dizem que foi um dos irmãos do Lô Borges, que ensaiava na sala ao lado, que cuidou dessa parte. Mas mesmo assim, isso não os impediu de gravar “Bestial Devastation”, que hoje é considerado histórico no metal brasileiro.

L’OFF: Como começou a sua trajetória na música?
AK: Vim do ABC paulista, que sempre teve a cena do heavy metal muito fértil. A minha banda chamava-se Esfinge, era formada por amigos da escola, e tinha forte referência do Kreator. Naquela época [1983], a gente tocava em qualquer lugar e adorava hits do Twisted Sister e do Venom.

L’OFF: Na metade da década de 1980, muitos músicos falavam sobre a dificuldade de ter acesso ao material de outros conjuntos. Você também sentiu isso quando passou a se interessar pelo metal?
AK: Não era fácil conseguir fitas cassetes e VHS, por exemplo. O caminho era mais ou menos assim: alguém tinha uma fita e emprestava para fazer cópia. A loja Woodstock era o principal local onde a gente se reunia. O próprio Max e o Igor vinham de Belo Horizonte para São Paulo apenas para ir até lá. A galera fazia vaquinha para comprar um, dois ou três discos e fazer réplica pra todo mundo. Pense que ainda não tinha internet, não tinha YouTube, não tinha Spotify, não tinha nada disso. Então, a gente tinha que frequentar a Woodstock. O dono, Walcir Chalas, também apresentava um programa na rádio 89FM, o “Comando Metal”, onde rolavam duas horas de som. E isso era importante para consolidar o estilo musical.

L’OFF: O “Roots” é um disco importante para a música. Vocês foram pioneiros na concepção dele, trazendo instrumentos e parceiros inusitados. Queria que você fizesse um balanço sobre este álbum.
AK: O “Roots” não pode ser discutido de forma unilateral. Ele é a consequência da primeira turnê internacional que a gente fez em 1989, do álbum “Beneath the Remains”, onde começamos a ver o Brasil de fora, como um astronauta enxerga o planeta Terra da Lua. É uma outra visão que você tem da sua própria casa, do seu próprio país. Por isso é tão bom viajar, né? Você cria perspectivas, pontos de vista diferentes. E a gente passou a perceber que o Brasil era singular, com cultura e ritmos únicos. E aos poucos colocamos isso na nossa música como brasileiros e não como uma jogada de marketing. Por isso o “Roots” foi a consequência do que aconteceu nesta turnê. Depois, o álbum “Arise” traz alguns elementos da música sul-americana na introdução do lado B do vinil, em “Altered State”. Este disco levou a gente pela primeira vez pra Austrália, Rússia, Europa, América do Sul e Japão. Vendo a nossa casa por ângulos distintos, fica- mos inclinados a usar ainda mais artifícios nacionais, que, no caso de “Chaos A.D.” aparece como um trabalho bem brasileiro, visto na faixa “Kaiowas”, que tem influência da viola caipira e do sertanejo, e na introdução de “Refuse/Resist”, que também tem percussão em evidência. Em vez de nomear uma música em homenagem a uma tribo indígena, nós fomos conhecer os xavan- tes, que não têm nenhuma influência europeia. A música deles vem de outra raiz, mas mesmo assim é considerada brasileira pelo território, pela posição geográfica. “Roots” foi um processo de autoconhecimento, que explodiu nessa expressão que a gente queria mostrar, com influência do Carlinhos Brown, do povo escravizado que veio da África com instrumentos, melodias e crenças diferentes, e a nossa própria alusão como pessoas que ha- bitam as grandes cidades e têm essa bagagem da música clássica, do metal europeu e do nacional.


L’OFF:
Quais são as bandas que influenciaram o Sepultura?
AK: Dorsal Atlântica, Vulcano, Korzus, Salário Mínimo e Centúrias.


L’OFF
Vocês vão fazer uma turnê de despedida de 18 meses, passando por 40 países. Haverá parcerias com outras bandas ou participações especiais?
AK: Não. A gente tem o Sepultura sendo headliner, mas na Europa vamos tocar com o Jinjer, na Argentina com o Death Angel e no Peru com o Nervosa. Nos Estados Unidos temos algumas possibilidades, mas ainda é cedo para revelar.

Fotos: Bruno Zuppone e Saul Carvalho/Divulgação

L’OFF: Muita gente tem perguntado para vocês ‘Poxa, por que agora? Vocês estão numa fase boa’. Como foi a decisão de encerrar o grupo?
AK: Acho um privilégio ter esse momento tão positivo depois de 40 anos de carreira e ter a coragem de parar, de dar uma respirada e pensar em abrir outras portas. Acredito que a experiência da morte da minha esposa [Patrícia Perissinotto Kisser faleceu em 3 de julho de 2022] e todo aquele processo do câncer, da criação do movimento Mãetricia, que visa debater a morte digna, e a luta pelo cuidado paliativo mostrou o quanto senti-me despreparado. A morte fecha uma lacuna, mas ao mesmo tempo ela dá milhares de possibilidades. Tudo aquilo que a Patrícia me inspirou em vida, em sua morte, ela me inspirou infinitamente mais. Ela era uma pessoa autêntica, sem máscaras. Construímos uma família juntos, com três filhos [Giulia, Yohan e Enzo], e sei que ela ajudou a moldar o profissional que sou. Foi na tensão da morte dela que percebi outros focos. A turnê do Sepultura tem um pouco a ver com isso. Eu realmente acredito que a morte é uma grande professora. Aprendi muito e estou aprendendo a respeitar a finitude. A gente lida com a morte em várias situações de relacionamento, de troca de emprego, troca de país... E fazemos isso porque são ciclos. Você vai ao cinema assistir ao filme, mas se não tem fim, não tem sentido O livro que você vai ler tem que ter uma conclusão, né? A gente está acostumado ao começo, meio e fim. O fim é importante porque ele sintetiza tudo o que já aconteceu, dá a lição, dá a moral da história. O fim é a parte mais importante do todo. E por que não o respeitar? A partir do momento que você aceita a finitude, você tem mais intensidade de vida, de presente, de significado das coisas e das pessoas. Tem que se acatar isso. O testamento vital está aí para botar limites na medicina ou nas possibilidades que mantêm o coração pulsando. A conversa sobre a eutanásia é fundamental para qualquer sociedade, porém, existe medo em se tocar no assunto. Mas veja como os mexicanos lidam com o tema. Eles celebram a morte no sentido de estar vivo, de ter aprendido, de se ter relacionado, de ter deixado uma história. Então a morte traz uma retrospectiva. Estou sentindo isso com o Sepultura – e veio novamente o questionamento sobre a importância da banda na vida de cada um. É muito emocionante ver as pessoas chorando durante o show. Dá para ver que a gente criou algo que faz diferença para o outro. Temos o nosso legado. E isso é o fechamento de um ciclo.

concert crowd person lighting group performance music music band musician guitar stage
person urban guitar musical instrument group performance music musician performer guitarist concert
Fotos: Bruno Zuppone e Saul Carvalho/Divulgação

L’OFF: Você tem novos projetos em vista?
AK: Tenho ‘n’ projetos (risos!). Sempre há muitas coisas que não consigo fazer, inclusive por causa da agenda do Sepultura. Depois que encerrarmos esta turnê, vou dedicar-se a outras coisas, mas confesso que não estou muito preocupado com isso agora. Neste momento, quero comemorar o presente. Não quero ficar ansioso pelo futuro e perder este período especial.

L’OFF: Da década de 1980 até aqui, como você percebe o brasileiro como consumidor do metal?
AK: O Brasil é um dos principais países do heavy metal e também é um seleiro de virtuoses, a exemplo do multi-instrumentista Kiko Loureiro, que foi do Megadeth. O fã do metal é muito técnico e observador; ele é chato de vez em quando. Não gosta de comprar coisa pirata, faz questão de ter o produto oficial, a camisa oficial, o disco oficial, o que ajuda muito a cena metaleira. O dinheiro vai para as bandas, para os empresários, para as gravadoras e mantém o mercado forte. A gente só melhora dessa forma e pode proporcionar grandes espetáculos e elevar o nível do heavy metal. O metal é muito família – de pai para filho que compartilha o vinil e vai ao show junto. A gente tem diferentes gerações entre o público. Claro, é uma banda de 40 anos, e era de se esperar que este tipo de coisa rolasse. Mas é muito bom ver os jovens na plateia. Isso é sensacional, pois não é uma moda passageira, é uma espécie de educação familiar, de herança cultural.


L’OFF:
Quando você entrou para o Sepultura, levou um nível grande de sofisticação à banda. Você é um músico virtuoso. Existe alguma parceria que ainda quer fazer?
AK: É possível que sim, mas não tenho nada específico. Felizmente tenho muitas portas abertas, conheço gente no mundo inteiro, meus ídolos da música... Então, as possibilidades estão aí. Mas é uma coisa à qual vou me dedicar depois, com outra energia, com outro processo de raciocínio. Como disse, agora o momento é de curtir esta turnê que está sensacional.

Fotos: Bruno Zuppone e Saul Carvalho/Divulgação
Fotos: Bruno Zuppone e Saul Carvalho/Divulgação

Tags

Posts recomendados